EUA: começa projeto que vai mapear mil genomas

30 de janeiro de 2008 • 08h21 • atualizado em 16 de janeiro de 2009 às 18h39

Um projeto internacional muito aguardado que resultará no seqüenciamento completo dos genomas de mil pessoas foi lançado recentemente, mas restam algumas dúvidas quanto ao escopo do estudo, que talvez não seja ambicioso o bastante.

O "Projeto 1.000 Genomas" criará um mapa de referência altamente detalhado sobre as variações genéticas humanas, e é o maior desses projetos anunciado até o momento.

"Trata-se de um ponto de inflexão histórico na genômica", diz Yang Huanming, diretor do Instituto de Genômica de Pequim, cuja unidade de Shenzhen é um dos três institutos envolvidos no lançamento do projeto. Os outros dois são o Instituto Sanger Wellcome Trust, em Cambridge, no Reino Unido, e o Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano dos Estados Unidos, em Bethesda, Maryland.

A expectativa de custo do projeto é de entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões, uma fração do que ele custaria caso fossem utilizadas as tecnologias mais antigas que serviram ao Projeto do Genoma Humano. Em lugar disso, a empreitada utilizara tecnologias de seqüenciamento de "próxima geração", se bem que estas ainda estejam em teste.

"Projetos como esse conduzem o desenvolvimento da tecnologia", diz David Altshuler, geneticista do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston. Os líderes do projeto ainda não decidiram qual será a profundidade de cobertura do genoma - ou seja, quantas repetições eles executarão para cada cromossomo.

Todos os participantes da primeira fase do projeto serão extraídos do Projeto Internacional HapMap, um grande estudo sobre diversidade genética, embora novos participantes possam vir a ser recrutados posteriormente.

O HapMap orientou os cientistas quanto a centenas de "polimorfismos de nucleotídeo único", ou SNP - os locais nos quais os códigos genéticos das pessoas diferem em apenas uma única base de DNA - nas regiões genéticas associadas a determinadas doenças. Mas essas associações explicam apenas uma pequena porção do risco individual de doenças específicas.

E os cientistas precisam empreender grandes e dispendiosos estudos de acompanhamento para caçar as causas específicas de doenças que existam nessas regiões genéticas. O novo projeto tem por objetivo orientar os cientistas a mais regiões associadas a doenças, e acelerar boa parte da dispendiosa pesquisa de segundo estágio.

O seqüenciamento de mil indivíduos permitirá que os cientistas observem mais tipos de variação - mais especificamente, variações estruturais, nas quais grandes porções do DNA são duplicadas, eliminadas ou rearranjadas em indivíduos distintos. E o projeto também capturará mais variantes raras do que o HapMap, cujo objetivo é catalogar SNPs presentes em 10% da população humana.

"Isso nos oferecerá um catálogo muito mais completo de variações genéticas, o que terá impacto profundo em nossa capacidade de compreender os fatores de risco subjacentes em uma doença", disse Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano.

Mas alguns cientistas questionam até que ponto os genomas concluídos serão acurados, tendo em vista o prazo curto e o orçamento limitado do projeto. Outros dizem que ele deveria ter incluído alguma informação sobre os fenótipos dos participantes - como fichas médicas - bem como dados básicos, a exemplo de peso e altura.

"É curioso que os estudos de associação de doenças não explorem muito o seqüenciamento, e o seqüenciamento não explore muito os dados referentes a doenças. Seria interessante que alguém explicasse o motivo, depois de 17 anos e bilhões de dólares investidos, para que essas duas áreas de estudo continuem descoordenadas", diz George Church, que comanda um estudo conhecido como Projeto Genoma Pessoal, em seu laboratório na Universidade Harvard, em Cambridge, Massachusetts. O projeto de Church está recolhendo e divulgando dados genéticos e sobre fenótipos de 10 indivíduos, entre os quais ele mesmo.

Mas os líderes do Projeto 1.000 Genomas dizem que seu estudo não é grande o bastante para oferecer respostas definitivas quanto às raízes genéticas de certos traços. Eles também alegam que recolher informações sobre fenótipos poderia gerar distorções no estudo e suscitar questões difíceis, como por exemplo quanto aos métodos de proteger a identidade dos participantes e ao mesmo tempo divulgar os dados relevantes. O projeto não recolherá ou divulgará informações sobre os participantes, excetuada sua etnia e seqüência genômica.

"Nenhum estudo envolvendo mil pessoas conterá número suficiente de portadores de determinada condição para propiciar qualquer possibilidade de apontar conexões entre genotipos ou fenótipos", disse Collins. Ele afirma que esse tipo de trabalho deve ser conduzido em estudos posteriores.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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