Implante troca dor nas costas por formigamento

13 de janeiro de 2008 • 11h13 • atualizado às 11h13
O implante traz outros efeitos negativos
O implante traz outros efeitos negativos
13 de janeiro de 2008
The New York Times

Tara Parker-Pope

Nova York


Para as pessoas que sofrem dores crônicas, há sempre um preço a pagar para aliviá-las. O uso de remédios as atenua, mas também causa um amortecimento dos sentidos e da capacidade de raciocínio.

Mas existe outra possível opção: o uso de mecanismos de estímulo implantáveis que ajudam a atenuar a dor por meio de impulsos elétricos. Para as pessoas que os utilizam, o preço do alívio é conviver com uma sensação de formigamento de baixa intensidade, em lugar da dor.

Os aparelhos, que são implantados perto da espinha, não estão sendo amplamente utilizados. São mecanismos dispendiosos, não funcionam para qualquer paciente e raramente aliviam completamente a dor. Profissionais do setor estimam que apenas 10% dos pacientes elegíveis optam por essa forma de tratamento.

Mas nos casos em que eles funcionam, a vida dos pacientes pode mudar completamente. Carolyn Stewart, 45 anos, de Clifton, Nova Jersey, conviveu com uma dor crônica nas costas desde que tinha 18 anos, idade em que ela passou por uma cirurgia depois de sofrer um acidente de automóvel.

Depois, quatro anos atrás, um procedimento executado para compensar o colapso de um pulmão resultou em danos acidentais a um nervo, o que começou a lhe causar dores severas. "Só quero poder dormir normalmente e não sofrer dores que me acordem a cada 20 minutos", disse.

Stewart vinha usando medicamentos para ajudá-la a enfrentar a dor, mas os efeitos colaterais, que incluem fadiga e intestino preso, só fazem com que seu desconforto aumente. Alguns anos atrás, ela participou do programa de testes de um estimulador elétrico instalado na espinha, e o aparelho causou redução considerável em suas dores.

Problemas com o seu seguro-saúde causaram demora em sua obtenção de um implante permanente, mas este mês ela enfim vai passar pela cirurgia necessária a instalar o aparelho junto à sua espinha. "Não terei uma redução de 100%", disse Stewart. "Mas se conseguir uma redução de 50% já ficarei satisfeita".

Nem todos os pacientes sentem a mesma coisa, porém. O médico de Stewart, Andrew Kaufman, diretor do programa de intervenção para redução de dores no Hospital Overlook, em Summit, Nova Jersey, descreveu uma paciente que testou um dos aparelhos de estímulo elétrico e passou por alívio "inacreditável" em suas dores, mas simplesmente não conseguiu se ajustar à sensação causada pelo aparelho, e decidiu que não o conservaria. "Ela não conseguia suportar o formigamento e o zumbido de fundo", disse Kaufman.

Ainda assim, a maior parte dos pacientes aceita bem essa versão vibratório do ruído branco, diz North, professor aposentado de neurocirurgia na Universidade Johns Hopkins, que desenvolveu diversas patentes associadas a essa tecnologia, ainda que não mais receba royalties gerados por elas.

"Quando os pacientes experimentam a sensação pela primeira vez, costumam defini-la como estranha", diz North, que atende pacientes no Instituto de Saúde Cerebral Healthbridge, em Baltimore. "Mas eles rapidamente percebem que essa estranheza é perfeitamente aceitável caso substitua a dor".

Dores crônicas são um problema peculiarmente difícil de compreender e resolver. É normal que um paciente sinta dor depois de um ferimento ou em função de um problema de saúde. Mas ocasionalmente os nervos passam por um pequeno defeito e disparam sinais de dor intensa ao cérebro mesmo depois que a ferida está curada.

Vijay Vad, especialista em medicina esportiva no Hospital de Cirurgia Especial de Manhattan, compara o problema a um termostato instalado em uma sala fria. "Caso a temperatura da casa seja de 18 graus mas o termostato considere que ela é de 10 graus, o sistema de aquecimento vai continuar funcionando", disse Vad.

A condição, conhecida como síndrome de dor regional complexa, ou SDRC, tipicamente surge depois de um procedimento médico ou acidente. Mas até mesmo ferimentos de baixa gravidade, como uma entorse sofrida como resultado de um tombo, são capazes de causá-la.

A probabilidade de que o problema se desenvolva depois de uma lesão é da ordem de 5%, de acordo com a Associação da Distrofia Reflexa Simpática, uma associação que congrega pacientes da síndrome de dores crônicas.

Mas os aparelhos de estímulo instalados na espinha oferecem alívio significativo das dores a apenas metade dos pacientes que utilizam o sistema. Em setembro, o jornal científico Pain publicou os resultados do maior teste clínico já conduzido com aparelhos de estímulo elétrico, comparando seu uso ao de terapias convencionais de redução da dor, entre as quais medicamentos, bloqueio de nervos e fisioterapia.

O estudo, financiado pela Medtronic, a fabricante dos implantes, acompanhou 100 pacientes que passaram por cirurgias de espinha e haviam desenvolvido dores crônicas em uma das pernas, ou em ambas.

Todos os pacientes receberam tratamento convencional de atenuação das dores, mas metade deles receberam também um implante na espinha. A dor caiu à metade para 48% dos pacientes que receberam implantes, ante 9% no caso dos demais pacientes.

Os implantes custam cerca de US$ 20 mil, e o custo da cirurgia, internação e acompanhamento podem elevar o preço total do tratamento a US$ 40 mil. Em agosto, o jornal médico Neurosurgery demonstrou que os implantes eram muito mais baratos do que cirurgias adicionais para aliviar a dor.

Outra preocupação é que o uso de estímulo em dose elevada esgote a bateria rapidamente, o que exigiria nova cirurgia para substituir o aparelho. Novas versões recarregáveis do aparelho foram desenvolvidas para resolver o problema.

Para alguns pacientes, o alívio é temporário, e as dores retornam posteriormente. "Mesmo que a eficácia se reduza com o tempo, acredito no sistema", disse Kaufman. "Quando os remédios não funcionam, que opção resta?"

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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