Celeste López
Espanha
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A conversa não demorou a fluir. "Ela está com febre, muito catarro e, pior, não quer comer... É por isso que viemos, porque ela tem anorexia". O pai do menino ficou assombrado: como uma criança de dois anos pode sofrer de anorexia? "Pois é. Já foi diagnosticada. Ela sofre da chamada anorexia dos lactantes. E, por incrível que pareça, outra menina do meu quarteirão também sofre da doença, bem como um bebê que conhecemos na creche. É um problema bastante comum", afirmou a mãe, em tom que revelava que essa não é a primeira vez que conversa sobre o assunto.
E ela tem toda a razão. A anorexia do lactante é um mal bastante freqüente entre as crianças de até três anos - a ponto de constituir o terceiro maior motivo para consultas com pediatras, depois de febres e tosse. É um mal passageiro, que se cura com o tempo e não requer tratamento específico, em crianças pequenas. Na verdade, os pais é que precisam de tratamento, porque em geral são eles que causam esse tipo de anorexia, diz a enfermeira Luz Fernández.
Mas o que é exatamente a anorexia do lactante? A Associação Espanhola de Pediatria (AEP) esclarece que a anorexia do lactante nada tem a ver com a anorexia nervosa, um distúrbio grave de conduta alimentar que conduz a alterações na percepção da própria imagem e que costuma surgir na adolescência, ainda que casos tenham sido detectados em crianças de apenas nove anos. "O significado da palavra anorexia é 'perda de apetite'. Só isso. No caso das crianças, classificamos como anorexia o fato de deixem de comer sem que isso seja acompanhado por outros sintomas que nos indiquem que existe uma enfermidade. Essa perda de apetite tem a ver com o ambiente que os cerca; é em muitas ocasiões uma rejeição ao estresse dos pais, às obsessões deles", assinala o médico José Luis Montón, porta-voz da AEP.
Ele explica que os bebês rejeitam os alimentos porque sentem que com isso chamam a atenção dos pais; por outro lado, também podem fazê-lo para expressar desagrado diante da obsessão destes quanto à comida. "Nós sempre dizemos que nenhuma criança estará bem se seus pais não estiverem bem. Se o relacionamento entre eles é complicado e tenso, se estão estressados ou angustiados por motivos de trabalho ou dificuldades na cidade cotidiana, as crianças percebem, e agem", diz. "E como? Muitas delas rejeitam a comida para chamar a atenção", acrescenta Montón.
Em outras ocasiões, a causa dessa falta de apetite se origina na insistência da mãe ou do pai em que a criança coma e engorde, à qual ela reage rejeitando a comida. "Uma mãe ou pai obcecado pela comida ou pelo peso da criança muitas vezes leva a criança a desistir de comer", afirma Montón.
Quando os pediatras encontram esse tipo de caso, seu trabalho se concentra mais nos pais que na criança. "Trabalhamos com eles, individualmente e em grupo, tentando fazê-los compreender que a solução envolve atuar com serenidade e tranqüilidade - o que nem sempre é fácil. Explicamos a eles que as crianças estão bem, e que todos os dados revelam que são saudáveis. Quando os pais se tranqüilizam, a criança volta a comer", diz Luz Fernández.
"O problema é que continuamos acreditando que bebês gordos são bebês saudáveis, e muitos pais usam esse critério para avaliar o desenvolvimento da criança. E isso está errado", ela afirma.
Tradução: Paulo Migliacci ME
La Vanguardia