Lúcia Jardim
Direto de Paris
França
Mesmo o vinho, que há alguns anos é isento das críticas e é apontado por pesquisas como sendo inclusive benéfico à saúde, é incluído como um dos vilões do câncer no relatório francês. Conforme os pesquisadores, não existe diferenciação, em termos de prejuízos à saúde, entre as bebidas alcoólicas: o que conta, dizem, é a quantidade de álcool que circula no sangue e com que freqüência o consumo acontece.
Isso significa que beber um cálice médio de vinho provoca os mesmos efeitos maléficos do que um copo de 250ml de cerveja ¿ ambos provocarão 10g de álcool circulando no corpo do consumidor. Os cientistas esclarecem que o que é considerado como "consumo moderado" (no máximo três copos por dia para os homens e não mais do que dois copos entre as mulheres) também significa aumento dos riscos de câncer, e por isso é preciso acabar com a idéia de que quem consome pouca bebida alcoólica está imune aos prejuízos do álcool.
A explicação é simples: quando digerido, o etanol oriundo de qualquer bebida alcoolizada é transformado em acetaldeído, que é uma substância cancerígena.
"O que importa é quantidade total final de álcool, e não a bebida consumida. Algumas pesquisas já estão revendo essa idéia de que o vinho não faz mal. Na verdade, percebemos é que houve um erro de metodologia nos estudos que apontaram o contrário, e agora é preciso revertê-lo", explica a coordenadora do relatório, Paule Martel.
Em comparação com as pessoas abstêmias ¿ que não bebem -, os riscos de desenvolver câncer de boca por alguém que ingere álcool diariamente é multiplicado por seis. Os que ainda fumam enquanto bebem elevam a mais de 10 vezes as chances de um dia sofrer da doença. O álcool é a segunda causa de morte por câncer evitável, depois do tabaco.
"É chegada a hora de parar de incentivar as pessoas que não bebem a começar com este hábito. Isso poderia começar pela interdição da publicidade de bebidas, por exemplo. É ingenuidade pensar que alguém que não consome álcool terá a mesma saúde que alguém que consome, mesmo que seja pouco."
Um alerta especial é dirigido às mulheres: os estudos mais recentes mostram que as mulheres que ingerem 10g de álcool por dia (um cálice de vinho) apresentam 10% de chances a mais de dar origem a um câncer de mama.
Na França, apesar de ter diminuído bastante a partir dos anos 60, o consumo de álcool continua sendo uma dos mais altos do mundo: por ano, um adulto bebe em média 12,7 litros de álcool. Cerca de 12% da população (ou seis milhões de pessoas) declara beber álcool todos os dias, e 4% (dois milhões de habitantes) bebem pelo menos três copos de bebida alcoólica diariamente no país.
No Brasil, nas últimas três décadas aconteceu o fenômeno inverso: o consumo aumentou em 70%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entretanto, entre os brasileiros a média de consumo de álcool por ano é bem menor que a francesa: 5,3 litros por ano, índice que coloca o país entre os 25 maiores consumidores do mundo. O Brasil tem 19 milhões de dependentes da bebida.
Redação Terra