Cientistas inventam a goma de mascar que não gruda

31 de dezembro de 2007 • 16h37 • atualizado em 02 de janeiro de 2008 às 20h54

John Tagliabue

Nova York


Terence Cosgrove, um discreto professor universitário em Bristol, no oeste da Inglaterra, imaginou um mundo no qual goma de mascar não aderisse às calçadas e sapatos , cadeiras de cinema ou cabelos.

Porque Cosgrove estuda os polímeros ¿ compostos químicos que, entre outras coisas, conferem plasticidade aos plásticos e tornam a goma de mascar mastigável-, ele não estava expressando um sonho ocioso. Caso fosse capaz de encontrar a mistura certa, imaginou o professor, seria possível reter o prazer de mascar mas sem o aspecto grudento.

Caso Cosgrove trabalhasse em uma universidade norte-americana, e não em Bristol, ele poderia conseguir verbas de uma empresa de capital para empreendimentos, de empresas privadas ou até do governo, a fim de financiar uma invenção com tamanho potencial comercial.

Mas ao longo da maior parte de sua carreira , não existia uma tradição de que as universidades britânicas agissem como incubadoras de projetos puramente comerciais.

"O Reino Unido tem um bom histórico em termos de pesquisa científica , mas retrospecto algum em transformar essas descobertas em valor", disse Magnus Goodlad, vice-presidente de operações do IP Group, uma empresa londrina de capital para empreendimentos.

A situação pode estar mudando, e um dos primeiros beneficiários, caso sua idéia receba aprovação das autoridades regulatórias britânicas e americanas, pode ser a Revolymer, empresa criada por Cosgrove.

Governos municipais britânicos estimam que gastam US$ 305 milhões ao ano removendo goma de mascar de espaços públicos, de acordo com a Revolymer. E as vendas de chicletes não param de crescer.

Este ano, as vendas de goma de mascar na Europa Ocidental devem subir a US$ 5 bilhões, ante US$ 3 bilhões cinco anos atrás, de acordo com o grupo de pesquisa de mercado Euromonitor.

"É preciso que exista um mercado, porque isso propicia benefícios reais", diz Stephen Brooke, do Swarraton, outro fundo de capital para empreendimentos que está investindo na Revolymer. "Eu digo a todos os meus amigos que basta olhar para o chão".

O número de empresas comerciais geradas pelas universidades britânicas disparou depois que o primeiro-ministro Tony Blair criou, em 1999, um fundo para permitir que as escolas superiores do país comercializassem seus resultados de pesquisa. Em 2005 e 2006, 669 empresas foram criadas, ante 592 no biênio 2003/4, de acordo com o departamento de inovação do governo.

O setor de capital para empreendimentos está começando a investir nessas empresas iniciantes. As pesquisas cooperativas envolvendo universidades e fundos privados foram avaliadas em US$ 1,2 bilhão em 2007, alta de 12% com relação a 2006.

Mas o Reino Unido e o restante da Europa ainda estão muito para trás dos Estados Unidos no que tange a apoiar a inovação universitária , disse Brooke. "Se você pensa nos Estados Unidos, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) vem agindo dessa maneira há 50 anos", ele afirmou. "No Reino Unido, temos apenas cinco ou 10 anos de experiência."

Nos Estados Unidos, os investimentos em pesquisa por empresa iniciante atingiram a média de US$ 118 milhões , de acordo com um estudo publicado em 2006 pela Universidade de Cambridge, ante média de US$ 35 milhões para as empresas iniciantes britânicas.

A experiência de Cosgrove mostra até que ponto a Europa ainda precisa avançar se espera recuperar o atraso com relação aos Estados Unidos.

A inspiração do professor para uma gosma de mascar não adesiva surgiu em uma viagem a conferências acadêmicas nos Estados Unidos ¿ e veio das calçadas recobertas de chicletes mascados, e não das palestras a que ele assistiu.

"Voltei para casa", diz, "e decidi que tentaria criar um polímero com a mais baixa adesividade possível".

A equipe de Cosgrove terminou por desenvolver uma fórmula para polímeros não aderentes. Para determinar se seria possível remover o material com facilidade das calçadas e outras superfícies, o grupo o comparou na prática aos chicletes espalhados pelas calçadas do oeste da Inglaterra.

As demais gomas de mascar eram difíceis de remover, mas a de Cosgrove era levada embora pela água da chuva - "ainda que algumas superfícies sejam melhores que outras", afirmou.

A despeito dos resultados promissores, Cosgrove ainda não estava interessado em criar uma empresa, até que Roger Pettman, empresário que tem um doutorado em química, o convenceu. A goma de mascar de Cosgrove venceu um concurso promovido em 2005 pela Universidade de Bristol para colocar em destaque os projetos de pesquisa da instituição.

Depois de obter capital inicial da universidade, o cientista levantou US$ 1,5 milhão em uma primeira rodada de financiamento envolvendo diversas empresas de capital para empreendimentos. Em fevereiro, um grupo de fundos de capital para empreendimentos liderado pelo Swarraton Partners injetou mais US$ 4 milhões na Revolymer.

Essas quantias representam uma fração dos recursos disponíveis nas universidades norte-americanas, mas seu impacto começa a se fazer sentir no Reino Unido, e o IP Group está apostando que a tendência a universidades mais empreendedoras deve crescer.

No ano passado , a empresa, cujo fundo de tecnologia investiu na Revolymer, estabeleceu parceria com o European Investment Fund, uma parceria entre os setores público e privado que se tornou um dos maiores fundos de capital para empreendimentos na Europa.

No ano que vem, a Revolymer pretende lançar seu produto e marca - Clean Gum, evidentemente.

Cosgrove afirma que a goma de mascar pode ser apenas o primeiro entre os produtos de sua empresa.

Mas ele ainda hesita em se dedicar demais aos negócios. "Existe um equilíbrio delicado entre o trabalho acadêmico e a busca do lucro", diz.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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