Acelerador de partículas vira arma contra o câncer

26 de dezembro de 2007 • 10h15 • atualizado às 10h44
Paciente se prepara para receber tratamento para câncer de próstata no Loma Linda Medical Center, na Califórnia Foto: The New York Times
Paciente se prepara para receber tratamento para câncer de próstata no Loma Linda Medical Center, na Califórnia
26 de dezembro de 2007
Foto: The New York Times

Andrew Pollack

Estados Unidos


Existe uma nova corrida por armas nucleares em curso - dessa vez nos hospitais. Os centros médicos estão envolvidos em um esforço por transformar os aceleradores de partículas nucleares, até recentemente usados apenas para pesquisas exóticas de Física, em suas mais recentes armas na batalha contra o câncer.

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Alguns especialistas dizem que esses esforços apontam tanto para os pontos mais positivos quanto para os mais negativos do sistema de mercado usado nos serviços de saúde dos Estados Unidos, que tendem a promover o uso dos mais recentes e mais dispendiosos tratamentos - ainda que não haja muitas provas de benefício à saúde -, sem levar em conta os custos cada vez mais elevados, que têm impacto sobre a sobrecarregada economia do país.

As máquinas aceleram prótons até uma velocidade próxima à da luz, e os disparam contra tumores. Os cientistas dizem que os feixes de prótons são mais precisos que os raios-x hoje em uso na radioterapia, o que significa uma redução nos efeitos colaterais gerados pela radiação dispersa e, possivelmente, em nível de cura mais elevado.

Mas um acelerador de partículas de 222 t - e uma edificação de 100 m de comprimento e com paredes de até 5,5 m de espessura para alojá-lo - podem custar mais de US$ 100 milhões. Isso torna um centro de prótons, nas palavras de um fornecedor de equipamentos, "a mais dispendiosa ferramenta médica que existe".

Até 2000, os Estados Unidos dispunham de apenas um centro de terapia por próton instalado em hospitais. Agora há cinco deles, e outros 12 ou mais foram anunciando. Além disso, planos para a construção de um número ainda maior de instalações como essas já foram anunciados.

Alguns especialistas afirmam que existe imensa necessidade de mais centros de prótons. Mas outros alegam que a mentalidade de corrida armamentista terminou por assumir o controle, e os centros médicos estão tentando liderar a adoção desse tipo de equipamento a fim de tirar vantagem do prestígio - e dos lucros - que um centro de terapia por prótons poderia oferecer.

"Fico fascinado e horrorizado com a maneira pela qual a situação está se desenvolvendo", disse Anthony Zietman, oncologista especializado em radioterapia na Universidade Harvard e no Hospital Geral de Massachusetts, que está equipado com um centro de terapia por prótons. "Esse é o lado escuro da medicina norte-americana".

Preocupações semelhantes quanto a custos foram expressadas no passado com relação a novas tecnologias como as unidades de ressonância magnética. Embora elas se tenham tornado uma ferramenta básica da medicina, continua a existir preocupação quanto ao uso excessivo desses sistemas e seu impacto sobre os gastos médicos.

Zietman disse que embora os prótons sejam vitais no tratamento de certas formas raras de tumor, eles têm resultado pouco melhor que a tecnologia mais recente de raios-x no tratamento do câncer de próstata, a doença comum com a qual muitos dos centros de prótons estão contando como fonte de negócios.

"Mal se pode distinguir a diferença em termos de resultados ¿mas não em termos de preço", afirmou o pesquisador. O programa federal de assistência médica Medicare cobre custos de até US$ 50 mil em tratamentos de câncer por prótons, quase duas vezes mais do que o valor máximo coberto para radioterapia com raios-x. Mas os proponentes insistem em sua afirmação de que os centros de prótons oferecem melhor tratamento.

"É uma simples questão de Física", disse o médico Jerry Slater, o diretor de medicina radiológica do Centro Médico Universidade Loma Linda, no sul da Califórnia. "Cada feixe de raios-x que eu utilizo coloca a maior parte da dose de radiação em lugar diferente daquele que desejo". Em contraste, ele afirma, os feixes de prótons dirigem a maior parte da dose ao tumor.

O centro médico de Loma Linda construiu o primeiro centro de terapia por prótons nos Estados Unidos, em 1990, e já tratou 13 mil pacientes. O sucesso da unidade inspirou esforços semelhantes.

Surgiram empresas para ajudar a financiar, construir e operar os centros de tratamento por prótons. Em alguns caso, governos locais e estaduais, em um esforço por atrair turistas médicos, decidiram colaborar. Os recursos obtidos dessa maneira estão permitindo que centros de terapia por prótons sejam construídos até mesmo por hospitais comunitários ou grupos de médicos.

Um dos maiores e mais dispendiosos projetos do gênero, com custo final que deve exceder os US$ 140 milhões, está sendo realizado pela Universidade Hampton, na Virgínia, uma instituição historicamente negra que não tem escola de medicina.

"Aqui em Hampton não sonhamos pequeno", diz William Harvey, o reitor da universidade. Ele afirmou que um centro de tratamento por prótons ajudaria os negros, que sofrem incidência maior do que os brancos no que tange a determinados tipos de câncer. E ele declarou que uma escola de medicina não era necessária, e que a instituição contrataria médicos para operar o centro como uma unidade para pacientes externos.

Alguns dos centros planejados estarão bem próximos geograficamente, o que eleva as probabilidades de capacidade excessiva. Há dois centros de terapia por prótons planejados para Oklahoma City, por exemplo, e dois outros para os subúrbios a oeste de Chicago.

As instituições que estão construindo os centros dizem que existe necessidade de número muito alto dessas unidades. Os centros existentes, cuja capacidade agregada não passa de alguns milhares de pacientes anuais, estão rejeitando solicitações de tratamento. E os pacientes aceitos muitas vezes precisam passar semanas em uma cidade longe de sua moradia.

Os proponentes dizem que mais de 800 mil norte-americanos - quase dois terços dos novos casos de câncer detectados - fazem radioterapia a cada ano. Se 250 mil deles se beneficiarem dos tratamentos por prótons, eles bastariam para ocupar plenamente mais de 100 centros de terapia.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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