Fenômeno Knut causa demissão no zôo de Berlim

20 de dezembro de 2007 • 11h41 • atualizado às 12h17

Isidre Ambrós

Espanha


Era uma vez um ursinho polar chamado Knut, que foi abandonado por sua mamãe ursa. Estava quase morrendo quando foi recolhido por seres humanos, que inicialmente o alimentaram com mamadeiras, e continuaram cuidando dele à medida que crescia. No dia 5 de dezembro, Knut comemorou seu primeiro aniversário, no zoológico de Berlim, e ganhou de presente um bolo de legumes e maçãs. Os tratadores do jovem urso decidiram que ele precisa de um regime, porque seu peso já ultrapassou os 115 kg.

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O pobre Knut mal poderia imaginar, enquanto devorava com gosto seu bolo de aniversário, posando para as câmeras dos visitantes, que os humanos que dirigem o zoológico em que vive estavam discutindo sobre ele, seu futuro e sua proteção contra a mídia. A fama do urso acabou gerando um conflito entre o diretor do zoológico de Berlim, Bernard Blaskiewitz, e seu diretor financeiro, Gerald Uhlich. A crise irrompeu na semana mesma do aniversário de Knut, quando o conselho de administração do zoológico decidiu que não renovaria o contrato de Uhlich. As teses conservacionistas defendidas por Blaskiewitz parecem ter triunfado sobre as idéias empresariais de Uhlich, 51.

O diretor financeiro demitido, experiente em postos de gestão nos setores metalúrgico e metal e têxtil, havia sido contratado há três anos e meio pela direção do zoológico, com a tarefa de reorganizar as finanças da instituição. Quando nasceu o ursinho Knut, Uhlich viu no filhote um filão a explorar, e não hesitou em aproveitar o apelo popular do animal para convertê-lo em símbolo de conscientização ecológica - além de em máquina muito bem lubrificada de geração de receitas. Knut tem não só uma página na Web como uma linha de camisetas, gorros, bonecos, brinquedos, cartazes e muitos outros produtos que portam seu nome e imagem, com o lema Respect Habitat Knut. Graças ao filhote, a renda do zoológico começou a crescer muito.

Em 5 de dezembro, o zoológico de Berlim divulgou um comunicado no qual informava que o número de visitantes recebidos havia aumentado em 20% nos 12 meses anteriores, por obra do urso. A arrecadação se aproximou dos 10 milhões de euros, e ao que parece o ano de 2007 será fechado com lucro. Mas a exploração comercial de Knut estava sendo motivo de crítica, e não só dos ecologistas, - na opinião dos quais o tratamento recebido pelo urso polar mais popular do mundo é prejudicial ao animal, porque fez dele um brinquedo vivo -, mas também da direção do zoológico.

O dirigente mais alto da instituição, Bernard Blaskiewitz, se opunha à idéia de fazer do zoológico um parque temático, com uma estrela chamada Knut servindo como atração central. Na opinião dele, o zoológico deveria ser um local de passeio, descanso, formação de estudantes que vão ver os animais, pesquisa e proteção da natureza.

Todas essas idéias estavam em confronto com a filosofia empresarial de Uhlich, partidário da idéia de que o zoológico seja uma empresa que explore ao máximo seus recurso e obtenha lucros. Por fim, a administração decidiu que a única solução seria demitir o diretor financeiro, mas o debate sobre a questão terminou chegando aos jornais, alguns dos quais opinam que, sem os recursos gerados por Knut, o zoológico não terá como ser o idílico local de repouso desejado pelos ecologistas e pelos defensores da conservação.

Tradução: Paulo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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