Lareiras são vilãs do aquecimento na Europa

14 de dezembro de 2007 • 13h58 • atualizado às 13h58

Christiane Galus

França


A combustão de lenha, folha e madeira em lareiras, jardins e terrenos de residências privadas e em áreas agrícolas responde por entre 50% e 70% as emissões de aerossóis carbonizados no território da Europa. Essas partículas representam cerca de 60% dos poluentes em suspensão na atmosfera. Essa forma de poluição doméstica e agrícola acontece em todo o continente europeu, da costa de Portugal até a Hungria, e se desenvolve em uma faixa que se estende do solo à troposfera, a uma altitude de entre oito mil e 10 mil metros.

Foram esses os resultados de uma série de pesquisas conduzidas entre 2001 e 2005 como parte do programa europeu Carbosol. As conclusões do trabalho serão publicadas pelo Journal of Physical Research em sua edição de 15 de dezembro.

O programa Carbosol, coordenado pelo francês Michel Legrand, do Laboratório de Glaciologia, Geofísica e Meio Ambiente (LGGE), de Grenoble, e realizado com verbas fornecidas pelo Instituto Nacional de Ciências do Universo e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França, tinha por objetivo estudar a presença atmosférica de aerossóis carbonizados de origem vegetal na Europa, e comparar seu volume ao da poluição provocada pela combustão de fontes de energia fósseis (nos meios de transporte, geração de energia e aquecimento), vista como preponderante.

Os dados recolhidos pelo programa Carbosol confirmaram os resultados de dois outros estudos conduzidos em ambientes urbanos. Um deles, conduzido em 2004 em Zurique (Suíça), demonstrou que a combustão de biomassa responde por pelo menos 40% da produção de partículas carbonizadas. O segundo, conduzido pelo Instituto Nacional do Ambiente Industrial e de Riscos (Ineris), da França, e outras organizações, em Paris, Lille, Estrasburgo e Grenoble, este ano, por solicitação do Ministério do Meio Ambiente francês, obteve resultados bastante semelhantes.

Para efetuar o estudo, os pesquisadores europeus do programa Carbosol trabalharam em locais diferentes, entre os quais os observatórios de Puy de Dôme, a 1,4 mil metros de altitude, e do Mont Blanc, a 4,3 mil metros. Os métodos de aferição utilizados foram dois: a presença de carbono 14, um isótopo radiativo do carbono que se desintegra rapidamente, e o lovoglusan, um açúcar produzido pela combustão da celulose. Este último indicador se revelou um excelente marcador químico, permitindo estimar sem ambigüidade as emissões geradas pela combustão de biomassa.

Os fogos domésticos e agrícolas são altamente poluentes porque, até o momento, "não foi realizado esforço algum para controlá-los, ao contrário do que acontece quanto à combustão das fontes de energia fósseis utilizadas pelo setor automotivo ou industrial, que estão sujeitas a regulamentação", explica Florent Domine, pesquisador do LGGE.

Para controlar essa poluição de origem doméstica e agrícola, que engendra problemas respiratórios e cânceres pulmonares, seria preciso reduzir ou proibir esse tipo de fogo. Medidas nesse sentido já foram adotadas na Suíça e na Alemanha para as queimadas agrícolas e em outros países para o uso de lareiras.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Le Monde
 
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