Clima: relatório assustador da ONU pode ser otimista

23 de novembro de 2007 • 11h46 • atualizado às 11h46

Volker Mrasek

São Paulo


O secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, classificou o mais recente relatório sobre o clima como "tão assustador quanto um filme de ficção científica". No entanto, o estudo do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) já pode estar desatualizado, e a situação que vivemos talvez seja ainda mais séria do que imaginávamos anteriormente.

Essa foi a culminação científica de um ano no qual o IPCC conduziu uma série de entrevistas coletivas, apresentando seu Relatório sobre o Clima Mundial em 2007 em quatro estágios.

Os três primeiros pratos foram servidos em fevereiro, março e maio: era comida pesada, que causou fortes dores de estômago porque os relatórios deixavam absolutamente claro até que ponto as alterações climáticas representam perigo. Agora, na cidade espanhola de Valência, chegou o quarto prato, na forma do Relatório de Síntese. Mas quem esperava que isso servisse para encerrar a opulenta refeição com um último estrondo ficou profundamente decepcionado.

O leitor atento do sumário de 23 páginas destinado às autoridades vai perceber que o novo relatório simplesmente resume o que havia sido revelado nas três primeiras porções.

Número considerável de pesquisadores do clima esperavam que a parte quatro desse um passo a mais e demonstrasse de maneira abrangente o que pode ser deduzido do conhecimento que adquirimos sobre as alterações climáticas (parte um), suas conseqüências para os ecossistemas e as sociedades humanas (parte dois) e as possíveis medidas de combate à tendência (parte três).

Mas, acima de tudo, o IPCC decidiu não indicar em sua conclusão à maratona de relatórios que é provável que o diagnóstico oferecido pelos estudos tenha sido excedido, quanto a muitos pontos, e que o problema seja mais sério do que o relatório principal indica em suas três mil páginas.

A suposta nova bíblia do clima não está nem mesmo atualizada. Os dados remontam à metade de 2006. Os autores do estudo e os especialistas do IPCC estudaram toda a literatura científica disponível no campo do clima até aquela data, o prazo-limite para o estudo desde que ele foi iniciado. Mas já se passaram 15 meses.

E relatórios mais recentes, que não foram mencionados na Síntese, significam que o quadro pintado pelo IPCC pode na verdade ser róseo demais.

As emissões mundiais de dióxido de carbono geradas pela queima de combustíveis fósseis estão crescendo em ritmo mais rápido que no passado. Desde 2000, elas registram a média de mais de três partes por milhão (ppm), ante 1,3 parte por milhão em décadas anteriores.

"As emissões atuais parecem próximas do limite mais alto nos cenários de uso de combustíveis fósseis definidos pelo IPCC", diz Michael Raupach, físico australiano que lidera o World Carbon Project.

Cerca de metade das emissões antropogênicas de dióxido de carbono não ficam na atmosfera do planeta, pois são absorvidas pelos oceanos e plantas. Mas esses métodos naturais de redução de carbono podem ter sido superestimados.

As florestas das latitudes médias e setentrionais provavelmente absorvem 40% menos carbono do que estimam os cálculos do IPCC, de acordo com estudo multinacional recentemente publicado pela revista Science.

Kevin Gurney, pesquisador climático da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, disse que era errado presumir que biosfera de alguma maneira fosse capaz de sair em resgate. Não há como as árvores absorverem tanto dióxido de carbono adicional, diz ele.

Os cientistas também estão adotando posturas mais cautelosas quanto à capacidade dos oceanos para ajudar. As medições atuais demonstram que a capacidade do Mar do Norte para absorver carbono já está em queda.

Pesquisadores holandeses, belgas, canadenses e norte-americanos se referem a "um rápido declínio na capacidade de absorção de dióxido de carbono", em artigo publicado recentemente. Outros estudos apontam para desdobramentos semelhantes em todo o Atlântico Norte.

O gelo no Oceano Ártico está se reduzindo a cada verão. No começo de outubro, um estudo reportou novo recorde de baixa em 2007. A superfície gelada se reduziu a apenas 4,3 milhões de quilômetros quadrados, 23% abaixo do total registrado em 2005, a temporada recorde de baixa anterior.

A lendária Passagem Noroeste, que une o Atlântico ao Pacífico pelo Ártico, não estava interditada pelo gelo, e as previsões são de que, em 2030, já não haja gelo nas águas do Ártico - décadas antes da data prevista nos estudos utilizados pelo IPCC.

A previsão do IPCC quanto a novas elevações no nível dos oceanos - entre 18 e 59 centímetros em 2099, a depender do nível de emissões de carbono - também está parecendo conservadora.

Diversos pesquisadores dizem que os números deveriam ser revisados, para mais, porque deixam de considerar um aspecto importante: a água que o degelo conduzirá aos mares elevará o nível do mar. O IPCC não quantificou o efeito porque não se sabe que força ele terá.

Quanto a esse último ponto, ao menos, a organização recebeu dados atualizados, e agora afirma que 59 centímetros não deve mais ser considerado como limite superior, porque rápidas mudanças futuras nos fluxos de gelo derretido não foram levadas em conta no que tange à elevação dos níveis oceânicos.

Rajendra Pachauri, diretor do IPCC, recentemente afirmou que mesmo que a comunidade mundial consiga reduzir as emissões de dióxido de carbono, de 2015 em diante, o nível dos oceanos subirá entre 40 e 140 centímetros, em longo prazo - talvez não neste século, mas em breve. Isso não deve acalmar os temores, já que o clima reage devagar e as emissões registradas até hoje podem causar profundas mudanças.

Esse também é um aspecto que o relatório só menciona de passagem: de acordo com estudos atuais, parte dos gases emitidos pela atividade humana se manterão na atmosfera por milhares de anos - e afetarão o clima por meia eternidade.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Der Spiegel
 
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