Julien Bouissou
França
A utilização do tório no ciclo de combustão nuclear oferece numerosas vantagens aos cientistas e engenheiros. O mineral gera volume de detritos radiativos mais de 50% inferior ao do urânio, e está disponível em quantidade muito maior. As reservas indianas de tório foram estimadas em 290 mil toneladas, ante apenas 70 mil toneladas para as de urânio.
Além disso, ao ritmo de consumo atual, as reservas mundiais identificadas de urânio podem estar esgotadas dentre de 50 a 70 anos, a não ser os países adotem sistemas de regeneração de combustível nuclear usado, um projeto que a França está empreendendo no programa Superphénix. Para atender à elevação das necessidades energéticas no país e no mundo, não restará à Índia outra alternativa que não procurar recorrer ao tório. O país pretende ampliar a participação da energia nuclear em sua geração de energia elétrica a 25%, em 2050, ante a proporção atual de 3,7%, mas lhe falta urânio. A Índia não dispõe, em seu subsolo, de mais que 1% das reservas mundiais desse elemento, e não está autorizada a importar o metal desde 1974, quando conduziu seu primeiro teste nuclear.
A negociação de um acordo de cooperação nuclear com os Estados Unidos talvez leve à suspensão dessa proibição de compra de urânio no mercado externo. Mas a assinatura do tratado parece estar em dúvida, devido à oposição de um dos partidos que formam a coalizão governista em Nova Délhi. "Caso não venhamos a assinar o acordo nuclear negociado com os Estados Unidos, e na ausência de recursos suficientes de urânio, teremos de revisar para menos, e em pelo menos seis mil megawatts, nosso objetivo de produção de 20 mil megawatts de eletricidade com base em usinas nucleares, em 2020", reconheceu em 29 de outubro Anil Kakodkar, presidente do Departamento de Energia Atômica indiano. Por isso, resta ao país desenvolver o uso do tório, que talvez venha a se tornar o combustível preferencial da independência energética indiana.
O país controla um quarto das reservas mundiais do minério. "A idéia consiste em caminhar na direção da autonomia graças aos reatores acionados por tório", confirmou, em outubro, Abdul Kalam, ex-presidente da Índia e considerado como um dos pais do programa nuclear bélico indiano. Para que isso seja possível, Nova Délhi lançou, no final dos anos 70, um programa nuclear em três estágios.
Inicialmente o país importava tecnologias estrangeiras para construir centrais nucleares clássicas, de água pesada, funcionando com urânio e gerando plutônio como subproduto. Há 12 reatores desse tipo já em funcionamento,e quatro outros em construção.
O plutônio gerado por essas unidades permitiu que o país começasse a desenvolver o segundo estágio de seu programa, em 2010, com a construção de um supergerador com potência da ordem de 300 megawatts.
O reator desse projeto usaria como combustível o plutônio, encerrado em um "manto" de materiais férteis, composto essencialmente de urânio. A Índia terminou por abandonar a idéia de produzir esse manto com tório, o que manteve o país ainda na dependência do urânio.
"Nós estamos na mesma situação de um investidor; com poucos recursos em plutônio em mãos, preferimos nos concentrar em um manto feito de urânio, porque nesse caso é possível produzir mais energia do que se utilizássemos um manto de tório", explicou Ratan Sinha, diretor do departamento de desenvolvimento e concepção de reitores, no Centro Bhabha de Pesquisa Atômica.
A terceira etapa do programa, que está sendo iniciado agora com a criação do primeiro protótipo de reator acionado por tório, conduzirá ao abandono definitivo do urânio, pelo sistema nuclear da Índia. Até 2020, essa etapa terá construído e colocado em operação reatores para geração comercial de energia acionados por tório, de acordo com o material de orientação publicado pelo departamento indiano de energia atômica.
O país já construiu um reator de teste miniaturizado com potência de 30 megawatts e capaz de converter tório em urânio 233, um material físsil que não existe na natureza. Essa tecnologia permitiria que a Índia, no futuro, planejasse a construção de reatores que utilizariam como combustível o urânio 233 e uma quantidade pequena de plutônio.
"Ainda precisamos de algum tempo de trabalho para projetar e desenvolver com segurança as instalações necessárias. Mas em 2020 seremos o único país do mundo a produzir energia nuclear em larga escala com o uso do tório como combustível", garantiu Sinha.
A convicção demonstrada pelos indianos quanto ao potencial futuro do tório existe, igualmente, no grupo norte-americano Novastar Resources, que deseja estabelecer posição como líder em um futuro mercado desse elemento radiativo, e para isso adquiriu uma mina de tório nos Estados Unidos.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde