Pesquisadores buscam biodiversidade nos quintais

11 de novembro de 2007 • 10h54 • atualizado às 10h54

Elisabeth Rosenthal

São Paulo


A bem cuidada casa de Gino Boscherini - uma construção de dois andares, em cimento, fácil de identificar devido aos velhos acomodados em móveis de jardim e jogando cartas no jardim- não parece o refúgio ideal para material genético precioso.

E Boscherini, 84 anos, um homem desdentado, de rosto enrugado e vestido em um suéter puído, parece um herói improvável na busca pela preservação da biodiversidade diante das alterações climáticas.

Mas seu quintal e a horta que ele abriga contêm variedades incomuns de diversas plantas: uma fava cultivada apenas aqui, nas colinas por sobre o lago Trasimeno; um tomate especial que pode ser guardado por meses; uma espécie de abóbora polpuda que serve como alimentação de porcos. Essas variedades, conhecidas como "landraces", possuem traços únicos codificados em seus genes ¿ traços que os cientistas podem precisar utilizar a fim de salvaguardar o suprimento mundial de alimentos em resposta às mudanças no clima: a capacidade de crescer em um clima mais quente ou de resistir a uma praga específica, por exemplo.

À medida que as fazendas se tornavam mais comerciais, nas últimas décadas, adotando uma ou duas safras de alto rendimento, o número de variedades locais de alimentos começou a diminuir rapidamente em todo o mundo, o que elimina genes de plantas no exato momento histórico em que eles talvez sejam mais necessários.

Isso faz dos horticultores caseiros e dos pequenos fazendeiros europeus como Boscherini os verdadeiros guardiões das variedades de frutas, grãos e legumes que estão desaparecendo. E o tempo trabalha contra eles. Muitos desses homens são velhos. Quando eles morrerem, suas plantas podem perecer com eles. Remanescentes do passado agrário da Europa, eles criaram filhos e netos que pouco ou nada se interessam por manter suas plantações.

"A Itália central tem cerca de 500 landraces, a maioria das quais mantidas por fazendeiros e jardineiros idosos, e isso é um grande problema, já que existe a chance de que essas plantas se percam, dentro de uma geração - o processo de erosão avança com essa rapidez", disse Valeria Negri, cientista especializada em plantas na Universidade de Perugia, que obtém sementes dessas plantas órfãs e as planta nos fundos de sua casa, da maneira que uma pessoa que gosta de animais poderia recolher um cachorro abandonado.

Cerca de 10 anos atrás, Negri e seus alunos começaram a bater de porta em porta na região da Toscana, perguntando aos moradores que plantas e variedades eles cultivava. Quando voltaram a alguns desses lugares anos mais tarde a fim de pedir amostras de sementes, um terço das plantas haviam deixado de ser cultivadas.

O atrito quanto à variedade de plantas alarmou os cientistas, que estão tentando catalogar as variedades e seus traços especiais, e encontrar uma maneira de preservá-las.

"Com as alterações climáticas, todos os países precisarão cultivar safras diferenciadas, mais tolerantes ao desgaste causado pelas secas, calor ou chuvas excessivas", disse Shakeel Bhatti, secretário executivo do Tratado Internacional das Nações Unidas sobre Recursos Genéticos Vegetais, ratificado em 2004. "E, à medida que perdemos recursos, perdemos os conjuntos de genes que podemos aproveitar".

A biodiversidade de plantas cultivadas se reduziu em 75% ao longo dos últimos 100 anos, de acordo com a Organização de Agricultura e Alimentos das Nações Unidas. Na Coréia do Sul, apenas um quarto de 14 variedades vegetais nativas cultivadas em jardins e hortas em 1985 continuava a existir em 1993. Apenas 20% dos tipos de milho que existiam no México nos anos 30 continuam a existir hoje. Nos Estados Unidos, 95% dos repolhos e 94% das ervilhas deixaram de existir.

Aqui, na Itália rural, o drama da perda de biodiversidade está se desenrolando em quase todas as famílias, à medida que as novas gerações se transferem para as cidades e os pequenos agricultores que restam passam a recorrer a sementes compradas no varejo, que são mais fáceis de obter e utilizar do que se eles processassem sementes próprias.

Carlo, 57 anos, filho de Boscherini e antigo funcionário de uma ferrovia, foi ensinado na infância a cuidar e propagar os produtos plantados por sua família, que até recentemente eram transferidos como legados de geração a geração. Desde que se aposentou, ele vem ajudando o pai a escolher sementes, preservá-las para armazenagem e semeá-las na primavera. Mas a geração mais jovem dos Boscherini não manterá a tradição.

"É importante ensinar a eles, mas não estão interessados", disse Carlo com um olhar acusador ao filho, Fabio, 26 anos, que trabalha em um escritório de arquitetura. Fabio sorri e faz um vigoroso sinal negativo com a cabeça - como se dissesse "nem vem, já ouvi tudo isso antes". Carlo dá de ombros e diz que "não sei o que acontecerá quando eu me for. Eles estão ocupados com outras coisas".

Preservar uma ampla gama de variedades de plantas é crucial, dizem os especialistas, porque elas fornecem aos cientistas e agricultores um banco de genes que podem ser implantados em variedades mais comerciais à medida que as condições de cultivo e as necessidades da sociedade mudarem.

"Boa parte da moderna agricultura européia é homogeneizada", diz Pablo Eyzaguirre, diretor científico da Biodiversidade Internacional, um grupo de pesquisa sediado em Roma. "Mas existe uma espécie diferente de agricultura que está sendo desenvolvida nas hortas pessoais, e permite que a diversidade de safras prospere e evolua."

Jardineiros e agricultores europeus mantiveram vivas variedades raras de safras conhecidas, tais como favas, aipo, repolho, alface e tomate, que de outra maneira estariam extintas, diz Eyzaguirre.

Herald Tribune
 
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