Atualizada às 15h46
Não se trata de um simples truque de marketing. Plásticos feitos de milho e outros vegetais estão conquistando um pequeno nicho no mercado de plásticos derivados de petróleo, e vêm sendo definidos como alternativas ecológicas a tudo - de embalagens para comida a tubos de batom e fibras têxteis, além dos vales-presente.
Os chamados "bioplásticos" oferecem ao mundo uma maneira de reduzir sua dependência do petróleo, e quase todos são biodegradáveis pelo menos em certa medida. Mas os argumentos ecológicos de seus produtores são complexos, e os ambientalistas vêm demonstrando cautela quanto a apoiar esses produtos.
A fabricação de bioplásticos gera dióxido de carbono, que contribui para o aquecimento global. Os materiais são produzidos de plantas - milho, gramíneas, cana-de-açúcar e até batata doce - que exigem terra e água para cultivo. Alguns observadores expressam alarme porque mecanismos geneticamente modificados são usados para fomentar a fermentação que os produz. E a reciclagem dos produtos feitos com eles apresenta ainda outros obstáculos.
Os materiais podem custar três vezes mais do que os plásticos convencionais, e isso faz com que as empresas hesitem em adotá-los. Até que os bioplásticos se expandam para além de sua pequena fração atual do mercado geral de plástico, sua conquista de popularidade deve ser árdua.
O principal benefício do bioplástico seria reduzir em 10% a parcela do consumo de petróleo que é dedicada à produção de plásticos nos Estados Unidos. Os tipos biodegradáveis também ajudariam a compensar o progresso lento da reciclagem no país - em 2005, apenas 6% do plástico produzido nos Estados Unidos foi reciclado, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental (EPA).
Também faltam aos bioplásticos toxinas como o cloreto de polivinil (PVC), que causam preocupações de saúde e levaram o governador Arnold Schwarzenegger a assinar este mês uma lei que proíbe o uso de produtos químicos chamados ftalatos em brinquedos e produtos para bebês.
O mais recente produto no mercado é o Mirel, da Metabolix, uma empresa sediada em Cambridge. O plástico se biodegrada com mais facilidade do que os concorrentes e, ao contrário de alguns, pode facilmente se decompor em uma lixeira de quintal.
Sua primeira aplicação ao consumidor surgiu em julho, quando a Target começou a usar o material nos vales-presente vendidos em 129 de suas lojas. A Metabolix está conversando com potenciais clientes sobre dezenas de outras aplicações do Mirel, de cabos para lâminas de barbear a revestimento para copos descartáveis de café.
A Archer Daniels Midland, uma grande empresa de processamento agrícola, fornece milho para a produção do Mirel, que requer bactérias geneticamente modificadas para ajudar na fermentação.
O mais usado dos bioplásticos, o NatureWorks, produzido por uma subsidiária da Cargill, de Minnesota, também toma o milho por base e é biodegradável, mas é fabricado sem a intervenção de bactérias geneticamente modificadas.
Parte do milho que é usado no processo passa por engenharia genética no cultivo, porém, o que gera preocupações ambientais e em termos de fontes, mas a empresa aponta que a proteína diferenciada que o milho contém é destruída no processamento.
O NatureWorks já está em uso em dezenas de produtos, entre os quais garrafas d'água, uma aplicação para a qual o Mirel não serve, por não ser transparente.
Outros bioplásticos ao menos parcialmente biodegradáveis incluem o Ecoflex, produzido pelo grupo químico alemão BASF; o Mater-Bi, da italiana Novamont; e o Cereplast, de uma empresa homônima sediada na Califórnia.
E dois grandes fabricantes de plásticos convencionais - a DuPont e o grupo brasileiro Braskem - fabricam bioplástico reciclável mas não biodegradável, a primeira de milho e a segunda de cana-de-açúcar.
Para a maioria dos plásticos biodegradáveis, incluindo o NatureWorks, a reciclagem requer instalações especializadas - e elas não são tantas. Os produtos se mantêm estáveis em lugares nos quais a umidade e a presença de micróbios sejam pequenas, como em uma prateleira de despensa.
A Metabolix diz que o Mirel se decompõe em cerca de dois meses se deixado em um quintal, e cerca de duas vezes mais devagar se enterrado ou lançado à água de um rio, lago ou oceano.
"Dizer que é possível reciclar esses materiais, científica e tecnologicamente, é só um primeiro passo", disse Betty McLaughlin, do Instituto de Reciclagem de Embalagens, uma organização sem fins lucrativos que encoraja mais reciclagem e reaproveitamento de material.
E, da mesma forma que diferentes plásticos produzidos à base de petróleo não podem ser misturados na reciclagem, não se pode misturar bioplásticos a plásticos convencionais, porque porções minúsculas podem contaminar produtos derivados de petróleo com ponto de fusão mais elevado.
"O conceito de sustentabilidade está ganhando tração, até mesmo no setor empresarial", afirmou McLaughlin. "Mas esses materiais têm uma longa estrada a percorrer antes que sejam aceitos."
Oliver Peoples, co-fundador e vice-presidente científico da Metabolix, acredita que "existe um segmento da população disposto a pagar mais para se sentir melhor quanto ao uso de plástico. E se uma empresa decidir que vale a pena cobrar US$ 2,03 em lugar de US$ 2 por um copo de café, nosso sentimento é de que estamos acrescentando algo àquela marca".
Redação Terra
Os bioplásticos reduzem a dependência do petróleo e quase todos são biodegradáveis
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