Watson, biólogo molecular, retornou na sexta-feira aos Estados Unidos. O Laboratório Cold Spring Harbor, em Nova York, do qual era diretor, suspendeu o cientista das suas "responsabilidades administrativas", procurando se distanciar de seus comentários ao jornal britânico "The Sunday Times".
Em suas declarações, o cientista tinha expressado seu pessimismo sobre a África. Ele afirmou que as políticas do Ocidente para o continente se baseiam na crença de que "a inteligência dos africanos é como a dos brancos", o que, segundo ele, as provas científicas negam.
Watson estava na Grã-Bretanha para promover seu último livro, "Avoid Boring People". A agenda incluía conferências e discursos em várias cidades, como Oxford, Cambridge, Bristol, Newcastle e Edimburgo. No entanto, o Museu da Ciência de Londres decidiu anular um evento marcado para sexta-feira. Bristol e Edimburgo seguiram seu exemplo.
Depois de o laboratório americano para o qual trabalha anunciar a suspensão de suas atividades, o polêmico cientista decidiu voltar para casa.
"O doutor Watson sentiu a necessidade de voltar para os Estados Unidos para discutir o assunto com o laboratório de Cold Spring Harbor", explicou à imprensa Kate Farquhar-Thomson, porta-voz da editora Oxford University Press, que publicou seu livro.
As declarações de Watson ao "Sunday Times" foram seguidas por um artigo no jornal "The Independent". Nele, o cientista pediu desculpas a quem tivesse se ofendido. Mas insistia na necessidade de investigar a suposta base genética das diferenças de QI e aptidões intelectuais.
O prefeito de Londres, o trabalhista Ken Livingstone, entrou na polêmica ao afirmar que as declarações de Watson eram propaganda racista disfarçada de ciência.
"Essas teorias racistas, totalmente desacreditadas, tentam estabelecer uma hierarquia entre as raças humanas baseadas na genética. Destacados cientistas de todo o mundo condenaram a hipótese", disse Livingstone.
Para o prefeito, uma cidade como Londres, onde convivem tantas comunidades, não pode admitir essas idéias.
Alguns cientistas, no entanto, denunciaram a decisão de suspender os atos programados com Watson. Na opinião deles, a decisão atenta contra a liberdade acadêmica, de opinião e de expressão.
"É degradante uma proibição contra alguém com base nas informações de um jornal", criticou Colin Blakemore, diretor-executivo do Conselho de Pesquisas Médicas e professor de neurociências na Universidade de Oxford.
Segundo Blakemore, citado hoje pelo "Independent", Watson é "muito conhecido por seus pontos de vista provocadores e politicamente incorretos".
"Mas o nosso mundo seria muito triste se silenciasse um cientista tão distinto por culpa de suas opiniões menos agradáveis", acrescentou.
O filósofo ateu Richard Dawkins, que deveria participar de um debate com Watson na próxima semana, em Oxford, declarou que, se houve um erro, foi científico, e não ético. Portanto, deveria ser rebatido com argumentos científicos, e não éticos.
"O que não é aceitável do ponto de vista ético é a perseguição, que só pode ser descrita como uma atitude nada liberal e nem tolerante por parte de uma ''patrulha do pensamento''", disse Dawkins.
Outros cientistas, como Craig Venter, pioneiro no deciframento do genoma humano, disse que "não há base alguma nem na ciência nem no código genético humano que permita sustentar que a cor da pele pode determinar a inteligência".
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