Argila e RNA podem ser a origem das células

26 de outubro de 2003 • 16h06 • atualizado às 17h43

Cientistas norte-americanos afirmam que o que reuniu as moléculas orgânicas da Terra primordial em uma única membrana, que levou à formação de um esboço de célula, pode ter sido uma fôrma de argila. De acordo com os experimentos do grupo, a adição do mineral multiplicou em cem vezes a tendência de ácidos graxos (as moléculas que compõem os lipídios ou gorduras) de formar uma membrana de camada dupla, parecida com as de todas as células bacterianas, animais ou vegetais até hoje.

Além da formação, o projeto de célula também "cresce" ao incorporar mais partículas de ácido graxo das proximidades, e até se "divide", embora precise de estímulo dos pesquisadores, de acordo com o estudo publicado hoje na revista Science.

O experimento é mais favorável à argila, que já tinha demonstrado outra propriedade suspeitamente pró-vida e presente em várias partes do planeta. Ela é pode induzir a formação de cadeias de RNA, a molécula-irmã do DNA que também armazena instruções genéticas e, ao contrário dele, consegue induzir reações químicas sozinha. Para muitos cientistas, o RNA é o candidato ideal para primeiro material genético da história da vida.

O grupo se inspirou nessa capacidade conhecida da montmorillonita (o tipo de argila mais usado no experimento) para ver se ela conseguia induzir o mesmo processo com os ácidos graxos. As membranas celulares verdadeiras são formadas por moléculas similares mas mais compexas, os fosfolipídios, que incluem também átomos do elemento fósforo.

A tendência desses ácidos é se juntar em pequenos aglomerados. Os pesquisadores, no entanto, viram que a adição de um pouco de montmorillonita à mistura aumentou em cem vezes essa tendência. As vesículas de dupla camada que surgiram da reação englobavam as partículas de argila. Como tanto o mineral quanto as camadas de ácido têm carga elétrica negativa (e portanto deveriam se repelir), a hipótese dos pesquisadores é que uma camada de partículas positivas adjacente à argila atraia as vesículas.

Os pesquisadores misturaram ainda RNA, marcado com uma tinta fluorescente vermelha, à argila. Ele também foi englobado, dando mais um passo em direção a uma "célula", com membrana e material genético. Na presença de mais matéria-prima, as vesículas cresceram, absorvendo-a, e os pesquisadores causaram sua "divisão celular" (que ocorreu sem perda do material interno) fazendo-as atravessar uma rede de microporos.

O próximo passo no processo será fazer com que o RNA inicie uma síntese dentro das vesículas.

Redação Terra
 
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