Aproximação de Coréias ameaça natureza intocada

09 de outubro de 2007 • 15h06 • atualizado às 15h06

Rafael Poch

Espanha


Quando o presidente da Coréia do Sul cruzou a fronteira entre seu país e a Coréia do Norte, na terça-feira passada, pela primeira vez a pé, declarou que sua esperança era de que em breve "muita gente" pudesse fazer o mesmo. Isso causou alarme a Chung Tasari. "Quando ouvi as palavras deles, pensei que era melhor que não se confirmassem, e comecei a escrever um artigo no qual proponho que deixem em paz essa região", adjacente à cidade de Panmunjon, explicou Chung, presidente do Clube Verde, uma antiga e respeitada organização ecológica sul-coreana. Na opinião de Chung "ninguém deveria pisar nessa zona".

Desde 1953, a zona desmilitarizada que separa as duas Coréias em função do armistício assinado naquele ano vive intocada pelo homem. Trata-se de uma faixa de quatro quilômetros de largura e 248 km de extensão, e abriga um verdadeiro tesouro em termos de biodiversidade: mais de 800 espécies de animais e 1,1 mil de plantas, que graças a uma guerra que juridicamente nunca foi concluída sobrevivem livres de toda presença humana. É como se a zona desmilitarizada, conhecida como DMZ, confirmasse as palavras da poeta russa segundo a qual os versos de um poema podem surgir em meio ao lixo e aos escombros.

"Nós vemos cervos, ursos, águias e toda espécie de ave migratória", diz o sargento Bickerstaff, da Flórida, que serve em Panmunjon. "Um dia desses, vi uma família de quatro javalis, foi fantástico", acrescentou. Pouco antes, em uma visita guiada, o militar norte-americana explicava os dois lados da fronteira ao correspondente do Vanguardia nos seguintes termos: "Aqui, à esquerda, nossa aldeia, a Vila Liberdade; à direita, a dos comunistas, Vila Propaganda".

A zona toda tem um ar arcaico, que lembra o muro de Berlim na metade dos anos 80. Na Coréia do Norte, a linha também pode ser visitada, mas o nome das aldeias é invertido, nas explicações: a deles é a Vila Liberdade, ou Granja Modelo Querido Líder, enquanto do lado oposto fica a Aldeia Imperialista. É pura sorte que, em meio à estupidez humana, floresça a vida. Um mundo viável seria aquele no qual o sargento Bickerstaff e seu equivalente norte-coreano ingressassem na categoria de espécies ameaçadas, e em que os cervos trabalhassem como vigias para preservá-los, mas enquanto isso não acontece Chung se prepara para preservar o que existe.

Bosques e prados recobrem 97,4% da área da DMZ. Em nenhum outro lugar da Coréia existe biodiversidade mais abundante, diz Lim Cheahoan, diretor de departamento no Ministério do Meio Ambiente sul-coreano. Um caçador garante ter visto pegadas de tigres, algo que o biólogo Li Sankey, também membro do Clube Verde, encara com muita dúvida. Mesmo assim, na DMZ existem mais de 80 espécies de peixes e centenas de aves. De acordo com uma estimativa, quase 10% das cegonhas do mundo hibernam na área.

A linha de demarcação entre as duas Coréias se prolonga no mar. Ninguém pesca na área há meio século. Na costa oeste, no Mar Amarelo, pescadores chineses invadem a área furtivamente para explorar uma área dotada de cardumes prodigiosos, porque o restante do Mar Amarelo foi devastado pela pesca excessiva e pela contaminação. As comunidades de pescadores da região pediram ao presidente Roh, da Coréia do Sul, que proponha a Kim Jong Il, líder norte-coreano, um acordo pesqueiro que permitiria ação conjunta dos dois países contra os chineses infratores.

Por meio de documentos localizados depois da guerra, foi descoberto que a DMZ abriga a fortaleza do rei Gung Ye, monarca cujo primeiro-ministro, Wang Gun, foi o fundador da dinastia Koryo, no século X "Ninguém escavou o local em mais de meio século", diz Chung, cuja proposta é preservar a zona também por razões históricas. "A DMZ surgiu depois que muito sangue coreano foi derramado, e é um lugar de sacrifício para os dois povos", afirmou.

O Clube Verde da Coréia do Sul apresentou três propostas: declarar a DMZ como parque natural, com o propósito de reduzir ao mínimo a destruição e presença humana, depois da normalização política; criar um comitê conjunto de administração entre as duas Coréias; e declarar um plano integral.

Para o biólogo Li, um dos maiores perigos para o futuro da DMZ é a cobiça: o exército de empresários imobiliários, urbanizadores e especuladores que veriam nela apenas um meio de encher os cofres. "Os líderes se concentram nos aspectos políticos da reunificação, mas os grupos cívicos precisam importa uma visão de futuro mais ampla, sob o tema paz e reunificação nacional, com a preservação do meio ambiente", ele afirma.

La Vanguardia
 
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