Cosmonauta lembra treinamento de cães espaciais

06 de outubro de 2007 • 12h59 • atualizado em 08 de outubro de 2007 às 10h14

"Tenho 73 anos, mas corro três horas todos os dias. De carro! O tráfego me irrita. Nasci na Sibéria. Meu pai era mineiro, e eu sou um herói espacial. Incomoda-o que eu seja comunista? Proibir o álcool acabou com a União Soviética", diz Alexei Leonov, o primeiro homem a caminhar no espaço.

» Especial Corrida Espacial 50 anos

"Eu votaria de novo em Putin: tomara que volte a se candidatar. Deus? Bem, eu vou à Igreja. Ah, a história. Difícil contar a história. Os anos diluem as lembranças e ao final quem está narrando sofre a tentação de embelezar aquilo que narra para aumentar sua importância. A aventura espacial foi muito terrestre. Você se lembra dos cachorrinhos do espaço?"

Claro que me lembro! Os pioneiros do espaço foram simpáticos cãezinhos soviéticos.
Cadelinhas. Eram cadelas, muito mais espertas que os cachorros - melhor não nos enganarmos. Passamos meses treinando três cadelas cosmonautas, selecionadas entre dezenas de cães por sua inteligência e saúde - a famosa Laika, Zvezdochka (estrelinha) e Chernushka (pretinha).

Os senhores treinavam cosmocadelas?
Nós as preparamos para a gravidade zero, em uma centrífuga; as ensinamos a comer e a evacuar no interior da espaçonave; e a seguir a disciplina de bordo mesmo em viagens solitárias.

Cadelinhas muito competentes, portanto.
A base de lançamento ficava em plena taiga (as regiões selvagens da Sibéria), e por isso no dia do lançamento, devido aos nervos, Chernushka saiu correndo pelo mato, atrás de um coelho, e desapareceu.

Que problema. Todos para o Gulag!
Psiu. Não! Nós a substituímos por um cachorro qualquer; sem contar a ninguém, escolhemos uma cadela qualquer das que corriam pela base e a colocamos no lugar de Chernushka.

Mas ela não estava treinada.
Problema nenhum. Chernushka II foi ao espaço e voltou fresca como uma rosa, e lhe garanto que aquilo era uma experiência assustadora. Já Zvezdochka, que havia sido submetida ao treinamento em centrífuga, passou uma semana enjoada, cambaleando.

Parabéns, Chernushka II.
Ela se saiu muito bem. Chernushka II também fugiu para a taiga quando a levamos para fazer testes físicos. Não podíamos segurá-la na coleira, naquela hora. Todo um batalhão de soldados saiu à procura dela. Terminou por regressar. Mas foi uma encrenca.

A União Soviética liderava a corrida espacial.
Vivíamos uma era dourada. Éramos o país mais poderoso do mundo, e com o sistema mais justo. Meu pai havia sido mineiro na Sibéria e eu, por mérito próprio, me tornei Herói da União Soviética. Era adorado. Parecia-nos que o comunismo duraria para sempre e lutávamos por estender esse progresso a todos os demais países.

Era a guerra fria.
Não só chegamos primeiro ao espaço. Também éramos uma superpotência: prestávamos ajuda militar e econômica a meio planeta: Argélia, Egito, Iraque, Cuba, quase todos os países africanos e muitos asiáticos... Ai! Como todo aquele dinheiro que presenteamos jamais será devolvido aos russos!

O senhor vivia como um príncipe.
Depois que voltei do vôo espacial em que fiz o primeiro passeio fora da cosmonave, a imprensa me cultuava. Até demais: as manchetes definiam os cosmonautas como cientistas e artistas, com capacidade intelectual superior, mas éramos só militares normais: pessoas muito saudáveis, sim, mas com cérebros normais. Bem, eu pinto um pouco em meus momentos de folga, mas nada de excepcional.

O senhor pintou os planetas vistos de sua nave: um quadro imortalizado em 2001: Uma Odisséia no Espaço.
O mais importante para mim era a maravilhosa liberdade de flutuar e a paz que experimentei naquele passeio espacial.

Não era fácil ser selecionado.
Só eram elegíveis os pilotos militares de caças MiG. No começo da seleção, 3,2 mil voluntários se apresentaram, dos quais 20 foram selecionados. Desses, 12 foram ao espaço e cinco ainda são vivos. Éramos todos filhos da guerra, e havíamos vivido a escassez do pós-guerra. Sabíamos o que queria dizer procurar com afinco por um pedaço de pão para comer.

Imagino que as naves espaciais de 43 anos atrás seriam consideradas risíveis, hoje.
Só lhe direi que, em meu vôo na Voshkod II, ao regressar da primeira caminhada espacial da História, aterrissamos em meio à taiga dos Urais, bem longe da área prevista. Tive que me comunicar em código morse - ainda não dispúnhamos de rádios de voz -, repetindo as letras V e N, que queriam dizer tudo bem, em russo. Eles demoraram dias a nos localizar.

Mas o senhor estava contente.
Calculamos nossa posição com um sextante, como nos barcos.

Depois de voltar, o que fez?
Vivi durante 41 anos na Cidade das Estrelas, o centro espacial de Moscou, sob um regime estrito: centenas de horas de vôo, condicionamento físico, estudo, dieta severamente regulada.

Pelo menos o senhor mantinha o peso.
Caso você comesse demais, era punido, porque só podíamos comer o que os médicos aprovassem. Muitos cosmonautas terminaram excluídos porque não seguiam as normas.

O senhor não se sentia endeusado?
Éramos 20 heróis cosmonautas para 260 milhões de soviéticos. Quando fui nomeado diretor do programa de treinamento, disse a meus homens que "vocês só precisam tentar ser o que nossos cidadãos acreditam sejamos".

E chegou o fim da União Soviética.
Entramos em decadência e depois em total degradação. O pior momento, o que acabou com o comunismo, foi a proibição do álcool.

Nossa! Não deve ter sido só isso.
Fui deputado, e sei o que estou dizendo. Ligachov, em 1984, decidiu proibir o álcool, e com isso surgiram as máfias, o mercado negro e, por fim, o golpe contra Gorbatchov.

O senhor votará em Putin?
Espero que ele se candidate de novo!

Tradução: Paulo Migliacci ME

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