Médico: cirurgia cerebral pode alterar personalidade

23 de setembro de 2007 • 14h07 • atualizado às 14h07

Víctor M. Amela

Espanha


Enrique Ferrer, 57 anos, é neurocirurgião e chefe do serviço de neurocirurgia do Hospital Clinic, além de presidente da Sociedade Espanhola de Neurocirurgia. Nasceu e vive em Barcelona. É casado, tem quatro filhos, entre os 14 e os 26 anos. E se define como centrista, moderado. Ele diz que gostaria de acreditar em Deus, mas não é praticante. Ele gosta de informática.

La Vanguardia: Quantos cérebros passaram por suas mãos?
Ferrer: Ah, não sei. Centenas.

La Vanguardia: Qual é a cirurgia cerebral mais freqüente?
Ferrer: Extirpar tumores, e reparo de danos causados por hemorragias ou traumatismos.

La Vanguardia: Colocar as mãos no cérebro? Que medo!
Ferrer: É como ser um cirurgião de almas.

La Vanguardia: Desde quando almas são operadas?
Ferrer: Sabemos de crânios que sofreram trepanações no neolítico, milhares de anos atrás. De pessoas que sobreviveram a uma operação no crânio, talvez para alívio de uma hemorragia.

La Vanguardia: Ou talvez com fins rituais.
Ferrer: Talvez. Sempre intuímos o cérebro como trono do espírito. É curioso, os egípcios, ao preparar suas múmias, removiam o cérebro pelas fossas nasais, o mesmo caminho que hoje usamos para operações com cateteres.

La Vanguardia: Com que sucesso?
Ferrer: Há 70 anos, a metade dos pacientes não sobrevivia a uma cirurgia de cérebro. Hoje, o índice de sobrevivência atinge os 90%.

La Vanguardia: Ainda que evidentemente haja casos e casos.
Ferrer: Se o tumor se localiza em zona pouco eloqüente do cérebro, o sucesso é quase garantido.

La Vanguardia: O que significa "pouco eloqüente"?
Ferrer: Zonas do cérebro que não comandam diretamente uma função psicomotora ou orgânica.

La Vanguardia: Mas se o tumor estiver em uma zona eloqüente...
Ferrer: Extirpar esse tumor e o tecido cerebral circundante salvará a vida do paciente, se bem que a custo de determinadas lesões. Seria preciso ponderar as conseqüências dessa extirpação.

La Vanguardia: Que tipo de conseqüências, que lesões?
Ferrer:: Perda da fala, da memória, da visão, audição, olfato, paladar ou tato; paralisia de porções do corpo.

La Vanguardia: Não sei se vale sobreviver de forma tão restrita, doutor.
Ferrer: Ah, essa é a grande questão. Há que calibrar cada caso. Existem pacientes que não compensa operar. Uma cirurgia que poderia prolongar a vida de um velho por mais um mês vale a pena, se isso lhe causar desconforto ou sofrimento? Melhor não operar.

La Vanguardia: É questão de garantir uma vida funcional.
Ferrer: Sim, é uma questão de qualidade de vida; é esse o conceito chave. À medida que nossa expectativa de vida cresce, viver mais não importa tanto quanto viver melhor esses anos a mais. Em resumo: queremos chegar saudáveis à morte.

La Vanguardia: A medicina vem avançando rapidamente nesse sentido?
Ferrer: Sim, as cirurgias são cada vez menos invasivas e mais eficazes. Operamos o cérebro com sondas cateterizadas introduzidas pelas veias. Em minha sala de cirurgia, há 15 computadores trabalhando enquanto opero.

La Vanguardia: Não sei se isso me causa preocupação ou tranqüilidade.
Ferrer: Graças à tecnologia informatizada, é possível até operar a distância. A neurocirurgia remota é perfeitamente viável.

La Vanguardia: Tudo isso é muito avançado e espetacular, mas o senhor tem algo que cure ressaca, doutor?
Ferrer: Ressaca?

La Vanguardia: Ontem à noite misturei as bebidas e sinto como se meu cérebro estivesse pulando dentro do crânio.
Ferrer: Ah, beba água, sucos açucarados, algum estimulante... e espere. Aliás, você sabia que destruiu muitos neurônios?

La Vanguardia: Sair à noite mata neurônios?
Ferrer: O cérebro alcança sua plenitude estrutural aos 20 anos. Depois, começa a se desgastar, a perder neurônios. E o álcool é um dos poderosos destruidores de neurônios. Também outros tóxicos e drogas, pancadas, derrames...

La Vanguardia: Há avanços quanto ao Mal de Alzheimer.
Ferrer: Não é uma doença que se possa curar cirurgicamente. Ela começa com leves perdas de memórias e termina por matar o paciente. Manter um cérebro exercitado é a única profilaxia conhecida.

La Vanguardia: Além de exercícios, o senhor recomenda alguma dieta cerebral?
Ferrer: Dieta mediterrânea saudável e suplementos, como óleos de peixe.

La Vanguardia: Se ando o dia inteiro com o celular ao ouvido, isso afeta meu cérebro?
Ferrer: Um bombardeio de radiação eletromagnética não pode fazer bem, mas não existem provas incontroversas de que cause danos.

La Vanguardia: Uma cirurgia de cérebro poderia mudar minha personalidade?
Ferrer: Sim. Em muitos casos, pacientes tímidos saem da sala mais extrovertidos, e vice-versa. De acordo com a área em que se trabalhe, desaparecem certas inibições. Sempre previno minhas enfermeiras caso os pacientes desejem se aproveitar delas!

La Vanguardia: Eles se tornam atrevidos?
Ferrer: Sim. Tumores na região temporal podem afetar o sistema límbico, e mexer nessa região pode gerar conduta altamente sexual. Para os homens e as mulheres igualmente.

La Vanguardia: Nossa, é como um Viagra cirúrgico.
Ferrer: Se um neurocirurgião descobrisse como fazê-lo com precisão, segurança e eficácia, ficaria rico. E o mesmo se aplica aos circuitos reguladores do apetite e do metabolismo... diríamos adeus às dietas.

La Vanguardia: De todo modo, eu me assustaria se alguém tocasse meu cérebro.
Ferrer: Pois há pacientes que operamos sem anestesia, para verificar suas reações de acordo com a zona do cérebro que toquemos.

La Vanguardia: E isso não dói?
Ferrer: Não. O cérebro não dói.

Potência

O doutor Ferrer é um dos melhores neurocirurgiões da Espanha. Talvez por estar acostumado a abrir crânios, é um homem de mente aberta. Perdoem-me a piada, mas é fato: ele me falou com toda naturalidade, por exemplo, de uma paciente com "capacidades espantosas de vidência" a quem ele decidiu submeter a uma tomografia magnética, para estudar sua atividade cerebral. "Mas não foi possível. Ela morreu. Pouco antes, me telefonou, como se estivesse inquieta, desconfiada do fim". Para o médico, essa massa esponjosa e gordurosa encerrada no crânio é o grande enigma, por mais que ele o desvende a cada dia, com o bisturi na mão. "Talvez um dia aprendamos a usar o cérebro em toda sua potência", diz. Nesse dia, talvez não precisemos mais de cirurgiões.

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