Saúde

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Terça, 18 de setembro de 2007, 08h10 Atualizada às 08h49

Medicina busca alternativa saudável antimenopausa

No passado, mulheres só tomavam estrógeno para aliviar os calores, suores e outros sintomas desconfortáveis da menopausa. No final dos anos 60, graças em parte aos esforços de Robert Wilson, um ginecologista do Brooklyn, e o Feminine Forever, best seller que ele publicou em 1966, a terapia com estrógeno foi desenvolvida como tratamento de longo prazo para os males do envelhecimento.

A menopausa, argumentava Wilson, não era uma condição natural relacionada à idade, mas uma doença passível de tratamento por estrógeno, que substituiria os hormônios secretados em volume cada vez menor pelos ovários das mulheres. A terapia de substituição de hormônios, ou HRT, como veio a ser conhecida, se tornou um dos tratamentos médicos mais populares dos Estados Unidos.

Pela metade dos anos 90, a Associação Cardíaca Americana e outros grupos médicos influentes haviam concluído que os benefícios médicos da HRT estavam estabelecidos a ponto de permitir que fosse recomendada a mulheres mais velhas como forma de prevenir doenças cardíacas e osteoporose. Em 2001, havia 15 milhões de mulheres usando HRT nos Estados Unidos. E, em 2002, a terapia com estrógeno foi exposta como prejudicial à saúde.

Muitas explicações já foram propostas para a natureza transitória da sabedoria médica, mas a mais simples dispõe que ela siga o ritmo natural da ciência. Uma observação gera uma hipótese. A hipótese (que era vista como recomendação no ano passado) é testada, e termina reprovada no teste deste ano, o que é sempre o resultado mais provável em qualquer empreitada científica.

No caso da HRT, como na maioria dos casos de dietas, estilo de vida e doenças, as hipóteses começaram a se transformar em recomendações apenas depois de sustentadas por uma disciplina conhecida como epidemiologia, desenvolvido ao longo dos últimos 250 anos para analisar epidemias e doenças infecciosas.

Desde os anos 50, ela vem sendo usada para tentar identificar as causas das doenças que mais comumente nos afligem. No processo, a percepção daquilo que a pesquisa epidemiológica pode legitimamente realizar avançou muito além das realidades práticas.

Se a HRT for usada durante alguns anos de menopausa, é improvável que cause males sérios. A incerteza envolve os riscos e benefício de longo prazo relacionados a um uso prolongado depois da menopausa.

Em 198, um estudo da saúde de enfermeiras conduzido pela Escola de Medicina e pela Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard reportou que as mulheres que usavam estrógeno tinham incidência de ataques cardíacos dois terços menor do que as não usuárias.

Isso parecia confirmar a crença de que as mulheres estão protegidas contra ataques cardíacos até que passem pela menopausa, e que o estrógeno responde por essa proteção; isso se tornou a base das práticas terapêuticas nos próximos 17 anos. Em 1988, um estudo sobre substituição de estrógeno e seu efeito sobre o coração, conhecido como HERS, concluiu que a terapia com estrógeno aumentava a chance de que mulheres que já sofressem de problemas cardíacos tivessem ataques do coração.

Em julho de 2002, um segundo teste, a Iniciativa de Saúde da Mulher (WHI), concluiu que a HRT era um potencial risco de saúde para mulheres na pós-menopausa.

Embora pudesse proteger contra a osteoporose e talvez câncer intestinal, os benefícios eram mais que superados pelo risco superior de doenças cardíacas, derrames, coágulos, câncer de mama e talvez até demência. E essa era a conclusão definitiva.

Pelo menos até a edição de 21 de junho do New England Journal of Medicine. Agora, a idéia é que a HRT pode de fato proteger as mulheres contra doenças cardíacas se elas começarem a usá-la na menopausa, mas as prejudicaria caso elas a iniciem mais tarde na vida.

Enquanto isso, a questão de quantas mulheres podem de fato ter morrido ter morrido prematuramente ou sofrido derrames e câncer de mama porque estavam usando um remédio receitado por seus médicos para protegê-las contra doenças cardíacas continua irrespondida. Uma estimativa razoável seria dezenas de milhares.

Assim, de que maneira devemos responder da próxima vez em que nos pedirem que acreditamos que um remédio ou determinada faceta de nossa dieta ou estilo de vida está nos matando - ou nos tornando mais saudáveis? Podemos recorrer a diversos princípios, dizem os epidemiologistas mais céticos.

Um deles é presumir que a primeira indicação de uma correlação é sempre incorreta ou insignificante. Afinal, a primeira alegação tem a maior probabilidade de erro, em qualquer empreitada científica.

Se a correlação se repetir consistentemente em estudo após estudo, população após população, mas com incidência baixa - ou seja, de apenas alguns décimos de ponto percentual - melhor duvidar. E caso ela envolva qualquer aspecto do comportamento humano, a questão passa a ser a validação.

A exceção a essas regras é o dano inesperado que ninguém, nem mesmo os epidemiologistas, os pacientes ou os médicos destes, poderia prever de qualquer maneira que fosse.

Caso os pacientes estejam expostos a uma pílula ou vitamina específica, ou comendo uma dieta que deveria promover a saúde, e subitamente não haja efeito, ou o efeito constatado seja negativo, isso é um mau sinal, e merecedor de nossa consideração.

Caso a implicação de qualquer estudo epidemiológico seja a de que um determinado medicamento ou dieta nos propiciará prosperidade e saúde adicionais, devemos nos preocupar com as conseqüências imprevistas que poderiam surgir.

Nesses casos, nunca é má idéia manter o ceticismo até que alguém invista o tempo e o dinheiro necessários a realizar testes aleatórios e, ao contrário do que indica a história de boa parte das empreitadas científicas até agora, estes se provem incapazes de refutar as conclusões propostas.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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