Futuro de bebês prematuros não pode ser previsto

02 de setembro de 2007 • 15h18 • atualizado em 03 de setembro de 2007 às 12h27

Karen Auge

Estados Unidos


Em uma Unidade de Tratamento Intensivo de crianças, no Centro Médico Presbiteriano/St. Luke, em Denver (EUA), o dr. Jeffrey Hanson está acomodado em um banquinho, tentando introduzir uma agulha muito grande na espinha de um bebê muito pequeno. Um mês atrás, a menina, nascida com pouco mais de 500 g, parecia ser uma das histórias de sucesso de sua unidade. Agora, ela enfrenta problemas, e Hanson queria determinar se a fonte do problema era a meningite.

Na porta ao lado, em outro quarto particular, o pequeno Michael Sierra dormia. Uma semana antes, ele passou por três cirurgias de emergência, e ninguém previa que, dentro de poucos dias, ele teria saído do pulmão artificial e começado a comer e até a encantar as enfermeiras. Mas Michael conseguiu as três façanhas.

Uma Unidade de Tratamento Intensivo para recém-nascidos é uma montanha russa, com previsões que não se confirmam e constantes altos e baixos nas esperanças de pais e profissionais de saúde. "Pessoas como nós não conseguiriam sobreviver ao que essas crianças enfrentam", diz Hanson. "São as criaturas mais resistentes do mundo".

O número de bebês prematuros e muito prematuros que sobrevivem continua em ascensão, nos Estados Unidos. Os médicos agora podem combater alguns dos efeitos colaterais de um nascimento prematuro, e podem observar os indicadores - sangramento cerebral, peso e idade gestacional no nascimento - que oferecem informações sobre as perspectivas de prazo mais longo. "Os cuidados posteriores são essenciais", disse a Dra. Delphine Eichorst, que cuida de bebês na unidade de tratamento intensivo neonatal do mesmo hospital.

O centro acompanha os prematuros por dois anos, depois que eles recebem alta, segundo Eichorst. Um dos motivos é que, até o momento em que os pais levam a criança para casa, os bebês muitas vezes não conseguem determinar qual pode ser o futuro de um bebê muito prematuro. Pergunte a Brian e Sarah O'Neil.

Quando suas filhas gêmeas nasceram prematuras - 11 semanas antes do tempo -, no começo de 2003, todo mundo estava preocupado com Caitlin. A irmã, Abby, comia normalmente e o oxigênio se movia por seu corpo sem dificuldades, enquanto Caitlin enfrentava problemas no centro de tratamento neonatal intensivo do Hospital Sueco de Denver.

"Eles estavam muito preocupados com ela", disse Sarah O'Neil. "Só me deixaram segurá-la no colo depois de três ou quatro dias". Certa manhã, semanas depois do nascimento, O'Neil chegou para sua visita diária e encontrou um médico à sua espera. As tomografias cerebrais das meninas mostravam que Caitlin estava bem, mas Abby havia sofrido sangramento cerebral.

Passados quatro anos, as duas são meninas felizes, começando na pré-escola e demonstrando talento para a escultura com massinha. Mas Abby só anda quando alguém a convence a se apoiar no andador que fica na sala de sua casa. Até agora, passou por três cirurgias, e usa apoios metálicos nas pernas para combater os espasmos causados pela paralisia cerebral. Os médicos de Abby suspeitam que o sangramento tenha acontecido antes do parto, e que pode ter contribuído para nascimento prematuro das gêmeas, segundo O'Neil.

A cada ano, cerca de oito mil bebês e 1,5 mil crianças em idade pré-escolar têm paralisia cerebral diagnosticada, e nascimentos prematuros são causa importante desse problema. Um estudo canadense publicado em junho pelo Journal of the American Medical Association constatou que a cada ano cerca de 80 mil bebês ficam em risco de perder parcialmente a visão em função de um problema chamado retinopatia prematura, e 600 crianças ao ano ficam cegas por isso.

Um grupo nacional de centros médicos, a Vermont Oxford Network, acompanhou 1.775 crianças nascidas entre 1998 e 2000 com peso inferior a 1 kg. Delas, 42% tiveram de passar por novas hospitalizações, e 31% desenvolveram sérios problemas, como cegueira, deficiências visuais e auditivas ou paralisia cerebral. Quando Michael Sierra tiver alta e voltar à sua casa, na reserva indígena Rosebud Lakota, "ele precisará de cuidados especiais durante anos", disse Hanson.

Uma infecção destruiu metade do intestino e do cólon do bebê. Isso significa que ele terá dificuldade para absorver nutrientes e precisará de dieta especial por algum tempo, segundo Hanson. A mãe de Michael, Tweedy Sierra, diz que existe uma clínica médica indígena perto de sua casa, mas o grande hospital mais próximo fica em Rapid City, a 300 km. Os bebês prematuros também podem representar problemas financeiros.

Em seus 4 anos de vida, Abby O'Neil foi hospitalizada meia dúzia de vezes. Um ano atrás, a família conseguiu admissão ao programa federal Medicaid, que beneficia crianças deficientes e paga por boa parte da fisioterapia da menina. Sarah O'Neil estima que isso tenha reduzido em US$ 300 ao mês os gastos de sua família.

Em relatório sobre bebês prematuros publicado no ano passado, o Instituto de Medicina norte-americano estimou que os custos nacionais dos cuidados com bebês prematuros tenham ultrapassado o US$ 1 bilhão, em 2005. O objetivo é descobrir como impedir que bebês nasçam tão cedo, disse o Dr. Ronald Gibbs, diretor do departamento de ginecologia e obstetrícia no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

"É difícil pensar na perda de vidas, potencial e produtividade causada pelos nascimentos prematuros", ele diz. Enquanto isso, famílias e médicos aprendem, dia a dia, como cuidar dos bebês prematuros e das crianças em que eles se transformam. "Nossos médicos dizem que prematuros são uma nova espécie", diz Brian O'Neil. "Há 30 anos, eles nem existiam".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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