Sul-africana defende beterraba e alho contra aids

26 de agosto de 2007 • 14h00 • atualizado às 14h00

Rafael Ramos

Espanha


Parece brincadeira, mas na verdade é um exemplo da trágica realidade da África do Sul, onde um de cada seis habitantes morre de aids enquanto a ministra da Saúde afirma que a doença pode ser curada por meio de uma dieta de azeite de oliva, alho e beterraba, e um dos homens fortes do regime, o candidato à presidência Jacob Zuma, se considera a salvo do vírus desde que tome banho depois de dormir com mulheres infectadas.

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Com líderes como esses, não admira que, excetuado o trabalho e assistir TV, ir a cemitérios para os funerais de parentes e amigos seja uma das atividades a que os sul-africanos dedicam mais tempo, e que escavadeiras estejam preparando a cada dia dezenas de novos sepulcros nos gigantescos e reluzentes cemitérios de Soweto. Elizabethtown, Khayelitsha e as demais cidades que concentram os negros pobres do país.

A responsável pela saúde pública no país é Manto Tshabala-Msimang, 66 anos, e deve seu cargo à influência que exerce sobre o Congresso Nacional Africano (CNA), o partido dominante no país - especialmente entre a maioria negra -, e ao seu relacionamento excelente com o presidente Thabo Mbeki, igualmente cético com relação à aids e conhecido por contestar o consenso universal de que o vírus HIV seja responsável pela doença. Mas o posto de Manto está em risco por um assunto escabroso que nada tem a ver com suas insensatas teorias.

O Sunday Times de Joanesburgo revelou que a ministra ocasionalmente parece se afastar perigosamente do caminho demarcado por Nelson Mandela, e se colocou em primeiro lugar na lista de pacientes selecionáveis para receber um transplante de fígado, ainda que continue bebendo descontroladamente e tenha instruído seus seguranças a contrabandear garrafas de uísque e vinho do Porto para seu quarto (uma pessoa da idade dela e que continue alcoólatra jamais teria sido selecionada para receber o órgão que salvou a vida da ministra).

Mas a coisa é ainda mais grave, porque o artigo do influente jornal dominical irritou o governo ao revelar que a ministra da Saúde, quando foi diretora de um hospital em Botsuana, nos anos 70, exilada devido ao apartheid, se dedicava regularmente a roubar relógios e outros objetos pessoais dos pacientes pelos quais era responsável, quando estes estavam sob anestesia. Confrontada pelas declarações de testemunhas, Manto teve de admitir que as alegações procedem.

Muita coisa mudou para melhor na África do Sul durante os 13 anos transcorridos desde o final da apartheid: as condições de vida melhoraram nos bairros negros com a chegada de água e eletricidade, dezenas de milhares de casas são construídas a cada ano para substituir os barracos, e o governo pratica um liberalismo econômico que encanta o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas a maioria esmagadora do CNA, que premia sua luta contra o apartheid, resultou em nepotismo, compadrio, abusos de poder e em atitudes autoritárias que exploram todos os recursos legais (e alguns menos legais) para marginalizar a oposição.

O governo sul-africano parecia ter abandonado suas extravagâncias e optado pelo caminho da ciência e da razão para o combate à aids. Na ausência de Manto, a ministra interina Nozizwe Madlala-Routledge, lançou uma grande campanha de prevenção, inédita em um país no qual os homens consideram "pouco masculino" usar camisinha. Isso seria de esperar, enquanto Mbeki proclama seu ceticismo quanto às causas oficiais da aids e o antigo vice-presidente Zuma afirma que um banho depois do sexo previne o contágio pelo HIV. Aos sul-africanos resta confiar no senso comum - e nos efeitos benéficos do alho, beterraba e azeite de oliva.

Tradução: Paulo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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