Lições aprendidas intuitivamente por Teller estão sendo estudadas por laboratórios |
George Johnson
Estados Unidos
Era uma noite de domingo na Strip, a principal avenida de Las Vegas, onde algumas semanas atrás a Associação do Estudo Científico da Consciência realizou sua assembléia anual, no Imperial Palace Hotel. O encontro anterior da organização havia sido realizado na sóbria Oxford, mas Las Vegas - a cidade das ilusões, onde a Estátua da Liberdade contempla Camelot e a Esfinge - provou ser o lugar ideal. Depois de dois dias de apresentações de cientistas e filósofos que especularam sobre como a mente percebe, e se equivoca sobre, a realidade, pudemos enfim ouvir os profissionais: James "The Amazing" Randi, Johnny Thompson (ou "O Grande Tomsoni"), Mac King e Teller - mágicos que aprenderam intuitivamente algumas das lições que agora estão sendo estudadas em laboratórios sobre os limites da cognição e da atenção.
"Não se tratava apenas de um grupo de artistas de primeira classe", disse Susana Martinez-Conde, cientista no Instituto Neurológico Barrow, em Phoenix, que estuda ilusões de óptica e o que elas revelam sobre o cérebro. "Eles foram escolhidos a dedo devido ao seu interesse específico nos princípios cognitivos subjacentes à mágica". Ela e Stephen Macknik, outro pesquisador do Barrow, organizaram o simpósio, intitulado, com muita propriedade, "A Mágica da Consciência".
Apollo, atraindo minha atenção com o olhar e o movimento de uma mão, conseguia sempre escapar ao foco de minha visão, se mexendo como uma luminária articulável apontada sempre na direção errada. Quando ele parecia estar tentando apanhar alguma coisa em meu bolso direito, na verdade agia no esquerdo. Ao final do número, a platéia aplaudiu quando ele me devolveu minha caneta, algumas notas fiscais amassadas e meu gravador digital, que estava ligado o todo. Nem percebi que ele havia roubado meu relógio até que ele o removesse do próprio pulso e o entregasse.
"Ele é incrível", disse Teller, depois do espetáculo, enquanto corria para realizar seu número com Penn no cassino Rio. Um tema recorrente na psicologia experimental é o quanto a percepção é estreita - ou quão pequena é a proporção do "ruído" perceptivo captado pelos sentidos que se transforma em consciência. Mais cedo, antes do espetáculo de mágica, um neurocientista havia demonstrado um fenômeno designado "cegueira por desatenção", com um vídeo produzido pelo Laboratório de Cognição Virtual da Universidade do Illinois.
No vídeo, seis homens e mulheres - metade dos quais vestidos de branco e metade vestidos de preto - estão brincando com bolas de basquete. Os espectadores são convidados a contar quantas vezes os membros do time branco, digamos, conseguem completar um passe sem que o adversário intercepte. Eu segui as instruções atentamente, e fiquei surpreso quando, 15 segundos depois do início da partida, uma risada tomou conta da platéia. Foi só quando assisti pela segunda vez que percebi uma pessoa vestida de gorila entrando na quadra, vinda da esquerda.
Por mais sigilo que gostem de manter sobre os detalhes de seus truques, os mágicos estavam tão ávidos quanto os cientistas por discutir as ilusões cognitivas que passam por mágica: disfarçar uma determinada ação enquanto outra é realizada, indicar a existência de dados que não estão presentes e tirar vantagem da maneira pela qual o cérebro preenche os vazios - por meio de suposições, como afirma Randi, que são tomadas erroneamente como fatos. Em tom mais professoral que cômico ou artístico, Teller explicou de que maneira um bom prestidigitador explora a compulsão humana por encontrar padrões e impô-los quando na verdade estão ausentes.
"Na vida real, se você alguma coisa sendo feita repetidas vezes, e dedica atenção a ela, é possível gradualmente discernir um padrão", ele disse, subindo ao palco com um balde de estanho na mão esquerda. "Se você agir assim diante de um mágico, estará cometendo um grande erro".
Tirando uma moeda atrás da outra do ar, ele as lançava ao balde com um ruído metálico. No momento em que a audiência começou a perceber o truque - ele estava escondendo as moedas entre os dedos, Teller exibiu a mão espalmada e lançou nova moeda ao balde; em seguida, apanhou outra moeda do cabelo grisalho de um espectador. A culminação do número envolvia a remoção de um par de óculos de um espectador; quando ele os lançou ao balde, o ruído era como o de duas moedas caindo sucessivamente.
Apresentando o número pela segunda vez, e explicando cada passo, percebemos como havíamos sido levados a confundir causa e efeito e formar uma hipótese falsa depois da outra. As moedas vinham às vezes de sua mão esquerda e às vezes da direita, escondidas entre os dedos com os quais ele estava segurando o balde. Ele encerrou com sua definição de mágica: "A combinação teatral de uma causa a um efeito, sem base na realidade física mas na qual acreditamos de coração".
Van Gulick foi à conferência falar sobre os qualia - as sensações brutas e subjetivas que temos sobre cores, sons, gostos e cheiros. Os filósofos procuram determinar como essas experiências e percepções pessoais podem se enquadrar a uma teoria puramente física da mente. Certa noite, caminhando pela Strip, encontrei Daniel Dennett, professor de Filosofia da Universidade Tufts. Os luminosos brilhavam, o ar condicionado rugia. Perguntei se ele estava apreciando os qualia. "Você sabe como magoar um sujeito", ele brincou.
Dennett vem há anos argumentando que os qualia, na forma abstrata pela qual a filosofia os define, são ilusórios. Em um de seus estudos, ele propôs uma experiência intelectual envolvendo uma máquina de degustação de vinho. Uma amostra seria derramada em um funil e analisada por sensores eletrônicos em busca da composição química, e o resultado seria expresso assim: "um Pinot exótico e aveludado, mas carente de viço". Se pudermos desenvolver software e hardware suficientemente sofisticados, sugere Dennett, não existiria distinção funcional entre um enófilo e uma máquina. Assim, onde ficam os inefáveis qualia, no circuito?
Ao final do espetáculo de mágica no qual fui vítima de Apollo, Randi convocou Dennett e outro voluntário ao palco, para ajudá-lo no número de encerramento. Randi se sentou em uma cadeira e os dois outros amarraram seus braços às suas coxas com uma corda. "Daniel, você poderia tirar o paletó por um momento?", o mágico pediu. "Cubra minhas mãos com ele". "Um pouco mais para cima", instruiu Randi.
Sem mais delongas, ele apanhou o colarinho do paletó e o puxou em direção de seu queixo. A audiência aplaudiu. Ou ele havia escapado às cordas em alguns segundos ou suas mãos nunca estiveram amarradas. "Permita que as pessoas façam suposições", disse Randi, "e elas se convencerão de que a suposições são fatos. O que não é necessariamente verdade".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times