Espanha: fóssil indica canibalismo secular de tribo

26 de julho de 2007 • 10h25 • atualizado às 10h27

Josep Corbella

Espanha


A temporada de escavações arqueológicas deste ano em Atapuerca resultou na localização de 19 fósseis da espécie Homo antecessor e demonstrou que o canibalismo dos antigos moradores da província espanhola de Burgos não foi um episódio isolado e nem tinha por motivação a escassez de alimentos. Pelo contrário: a prática do canibalismo se manteve durante séculos, mesmo quando existiam outros alimentos a disposição.

Era sabido desde 1994 que alguns espécimes de Homo antecessor haviam sido devorados por seus congêneres, com a localização dos primeiros restos da espécie em sedimentos com idade de cerca de 800 mil anos. A novidade da temporada arqueológica deste ano, que durou um mês e meio e termina hoje, é que "em três estratos de idade diferenciada se encontraram restos do Homo antecessor" que foram devorados, explicou o arqueólogo Jordi Rosell em entrevista telefônica, esta semana. Os estratos em questão abarcam provavelmente um período de centenas de anos, assinalou Rosell, embora tenha acrescentando que não existe modo de datá-los com completa exatidão.

A descoberta elimina a hipótese de um período ou surto isolado de canibalismo e volta a impulsionar a idéia de que o canibalismo formava parte da cultura dos antigos moradores de Atapuerca, e era transmitido de geração em geração. Nos mesmos estratos também foram descobertos restos abundantes de mamíferos de grande porte, como cervos, bisões e porcos selvagens, o que indica que o canibalismo não se devia a uma necessidade biológica de alimentação mas sim, provavelmente a razões culturais, segundo Rosell.

Os fósseis do Homo antecessor localizados este ano são em sua maioria de crianças e adolescentes cujos esqueletos foram descarnados e esquartejados. Não foram encontrados traços dos hominídeos que devoraram os espécimes de Homo antecessor, ainda que os pesquisadores suspeitem que se trate de membros da mesma espécie.

Outras das descobertas destacadas da campanha de escavação são fragmentos de um crânio sepultado há meio milhão de anos, um corpo de pinheiro parcialmente carbonizado que sugere - sem provar conclusivamente - que os moradores de Atapuerca dominavam o fogo 300 mil anos atrás, e o mais importante descobrimento, um molar com entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de anos de idade, apresentado em 29 de junho, e que se tornou o mais antigo resto humano já localizado na Europa Ocidental.

Tradução: Paulo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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