O principal argumento dos críticos é de que a Aeronáutica deixou o setor submetido aos parcos investimentos governamentais, fazendo com que as últimas décadas, cruciais para alcançar a autonomia desejada, tivesse um saldo de poucos trunfos.
"Aqui no Brasil, fica tudo nas mãos da Aeronáutica. Em que pese o esforço dela, esse controle atrapalha o desenvolvimento do setor. Para mim, esse é um dos principais gargalos que têm de ser resolvidos", disse à Reuters José Leonardo Ferreira, doutor em ciências do espaço e professor da Universidade de Brasília.
Apesar do empenho em colocar o país na chamada era espacial, o Brasil ainda não aprendeu a andar sozinho. O programa nacional existe desde 1961 e até agora foi incapaz de construir um foguete com tecnologia para lançar um satélite ao espaço.
"Sabemos fazer satélite, mas não sabemos fazer foguete para transportar esse satélite. Teríamos nos desenvolvido muito mais se a construção de foguete e a tecnologia ficasse em mãos civis", completou Ferreira.
Em 2003, um acidente prejudicou ainda mais o programa aeroespacial brasileiro. Uma descarga elétrica no Centro de Alcântara, às vésperas do envio de um veículo lançador de satélite ao espaço, incinerou a torre de lançamento e matou 21 pessoas, entre técnicos e engenheiros.
"Depois do acidente do VLS (veículo lançador de satélite), foi recomendado uma reformulação do Programa Espacial Brasileiro, de modo que a área civil tivesse mais influência na fabricação de vetores. Isso não foi feito e muito do que temos ainda continua nas mãos de militares, com grave prejuízo para o desenvolvimento do programa", avaliou o físico Ennio Candotti, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
A Aeronáutica rebate as críticas e argumenta que, apesar das dificuldades financeiras, o setor acumula vitórias.
"Não existe falta de desenvolvimento. Pelo contrário, estamos num momento de retomada, às vésperas de uma comemoração", afirmou o major Anderson de Oliveira e Silva júnior, coordenador adjunto de Operação Cumã II, que levará experimentos científicos a bordo do VSB-30.
Defensores da desmilitarização do setor, cientistas argumentam que o modelo misto dos Estados Unidos é um bom exemplo a ser seguido. Lá, a NASA é responsável pela pesquisa, desenvolvimento de tecnologias e de programas de exploração espacial. Criada em 1958, a agência norte-americana foi responsável pelo envio do homem à lua.
No próximo 4 de outubro, o mundo celebra o aniversário de 50 anos da missão Sputnik, operação soviética que levou à órbita o primeiro satélite artificial. Para astrônomos, no entanto, o Brasil não tem muito o que comemorar.
Ao longo dos últimos anos, a Aeronáutica e a Agência Espacial Brasileira (AEB) fizeram três tentativas de enviar ao espaço um veículo lançador de satélites, todas frustradas.
Mais simples que um VLS, o foguete VSB-30, cujo lançamento busca superar o trauma da explosão de 2003, possui apenas dois estágios (motores de propulsão) e não é capaz de entrar em órbita.
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