Na quinta-feira, o foguete de sondagem VSB-30, que custou 900 mil euros, deve partir para o espaço e permanecer por lá durante 6,5 minutos.
Esta é a primeira vez em que um protótipo brasileiro atinge essa marca de tempo em situação de força gravitacional quase nula. A bordo do VSB-30, a Operação Cumã II levará nove experimentos científicos ao ambiente de microgravidade.
O passo é importante, apesar de estar a anos-luz de programas desenvolvidos por gigantes espaciais, como Estados Unidos e Rússia, protagonistas da corrida espacial do pós-guerra.
Cinco décadas atrasado, o Brasil ainda não lançou seu "Sputnik". O protótipo soviético conquistou a órbita em 4 de outubro de 1957, inaugurando a chamada corrida espacial.
Os veículos brasileiros de sondagem suborbitais, de alcance limitado, têm tecnologia para cruzar a atmosfera do planeta, mas não entram em órbita.
"Para aqueles usuários finais, os inventores, tem um significado. É o momento de realização de anos de pesquisa. Sob o ponto de vista do programa espacial, é mais um marco, pois desta vez estamos realmente levando carga útil do Brasil.
Embora tenhamos tido outros lançamentos, será a primeira vez em que teremos no espaço um tempo de microgravidade maior", diz o tenente-coronel Fausto Ivan Barbosa, coordenador da missão.
O programa espacial brasileiro foi criado em 1961, período próximo ao da Índia e da França, e até hoje não conseguiu colocar um satélite no espaço a partir de um foguete nacional. O principal problema é a falta de investimento no setor.
Contagem regressiva
Os trabalhos para o lançamento começam ainda de madrugada. Durante as horas que antecedem o instante de lançamento, técnicos militares e civis revisam cada passo. A contagem regressiva só é iniciada após a checagem das mais de 100 etapas da missão.
O civil José Alano Peres de Abreu é a maior autoridade nos momentos finais. É ele quem aciona o veículo e autoriza o lançamento. A seis quilômetros do centro de controle, de um bunker com paredes de concreto de cerca de 1,5 metro de espessura, é acionada a ignição do último bloqueio mecânico do lançamento, apenas um segundo antes do foguete partir. A casamata é o ponto mais próximo da rampa de lançamento.
O vôo total dura apenas 20 minutos. Após esse período, a carga útil do foguete (módulo que comporta os experimentos) cai no mar. Só então é resgatada.
A previsão é de que o VSB alcance 280km de altitude. Capaz de atingir uma velocidade máxima de 2 mil metros por segundo, o foguete brasileiro é composto ainda por dois estágios, espécie de motores de propulsão, movidos por combustível sólido.
O trauma
O VSB-30 já realizou três vôos com sucesso. O primeiro experimental, a partir de Alcântara, executado em 2004. Os outros dois foram enviados da Suécia, nos anos posteriores. A estréia do foguete ocorreu apenas um ano após o mais grave acidente do programa.
Apesar de menos ambiciosa, a missão Cumã II é mais simbólica que prática, pois marca a tentativa de recuperar o programa espacial do trauma vivido no Centro de Lançamento de Alcântara, há quatro anos, quando um acidente envolvendo o VLS1 (veículo lançador de satélite) matou 21 técnicos e engenheiros às vésperas do lançamento.
A missão repetirá experimentos efetuados na Missão Centenário, da Agência Espacial Brasileira e da sua similar russa, quando o primeiro astronauta brasileiro, o tenente coronel aviador Marcos César Pontes, colocou os pés no espaço no ano passado.
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