Victor M. Amela
Argentina
Esse é o resumo que o biólogo Sergio Rossi, especialista em medusas, faz de sua vida. Em entrevista ao La Vanguardia, ele fala sobre as curiosas características e o aumento da população das medusas. Leia abaixo a entrevista na íntegra:
Uma medusa ataca?
Uma medusa nunca ataca. Ela se deixa levar, mas, se tromba com algo, pode reagir.
Como?
Seus largos tentáculos liberam espinhos que possuem um líquido tóxico, que, em alguns casos, é muito potente.
Uma medusa pode matar?
Na costa australiana, nas águas da famosa barreira de coral, vive a cubomedusa, a espécie mais tóxica. Seu veneno é o mais potente do mundo, mais do que o de qualquer outro animal!
Ela provoca muitas mortes?
Sim. A Austrália é o lugar do mundo que mais registra mortes de pessoas por animais selvagens, e essa medusa é a causa principal.
Que efeito tem seu veneno?
É um potente neurotóxico: em poucos minutos, paralisa a sua função cardiorrespiratória e causa a morte.
Não existe antídoto?
Sim, aplicado em poucos minutos e desde que você não tenha absorvido muito veneno. Essa medusa é um perigo! Como você não a vê...
É invisível?
Sua estratégia de caça consiste em não ser vista. Elas mantêm os tentáculos transparentes colados ao corpo e, ao passar um peixinho, "crau!", se grudam nele. Daí, injetam o veneno e o comem.
Comem peixes?
Larvas de peixes, peixes e pequenos crustáceos, plâncton (krill), fitoplancton (algas microscópicas)... Algumas medusas têm dentro de seus corpos algas simbióticas que trabalham para elas, convertendo a luz e substâncias em nutrientes.
Que bicho mais estranho!
É um animal muito primitivo, do grupo dos cnidários, com um organismo muito simples: está composto de 95% de água, é de consistência gelatinosa, transparente...
Causam calafrios.
Elas me fascinam. São elegantes e belas. Algumas têm tentáculos invisíveis de 30 m! E há uma variedade muito grande: existem cerca de 4 mil espécies em todo o planeta.
Parece que vieram de outro planeta.
Elas estão aqui há 650 milhões de anos. Ou seja, antes dos peixes, dos anfíbios, dos répteis, das flores, dos insetos, dos dinossauros, das aves e dos mamíferos.
Que persistentes elas são!
Elas sobreviveram a todas as extinções de espécies até hoje. Deve ter sido bom ser como são! E sem cérebro. Sua adaptação aos mares é tão boa -para que mudar?
O que sentirei se me picarem?
Um ardor. E talvez enjôos, vômitos e, às vezes, até desmaios se a lesão é grande.
O que fazer neste caso?
Lave a ferida com água do mar, procure afastar o filamento de sua pele com uma pinça e não se coce nem aplique água doce.
Por que não?
Isso provocaria a abertura das pequenas cápsulas de líquido urticário nos filamentos e causaria ainda mais queimaduras (além de matar as células da pele). Use gelo envolto em um plástico, refrigere o local e corra ao pronto-socorro para evitar que a ferida infeccione.
Existem cubomedusas assassinas por aqui?
Não. No Mediterrâneo, existem cerca de 300 espécies de medusa, mas as mais comuns em nossas costas são a Ristozoma pulmo (conhecida como aguamar), que não ataca muito, e a Pelaria noctiluca, que é muito agressiva. E brilha em tons rosados e purpúreos encantadores.
O senhor não disse que eram transparentes?
Existem variedades coloridas, que vivem em maior profundidade, e até medusas luminescentes. É maravilhoso vê-las movendo seus filamentos iridescentes.
Por que elas o fazem?
Não sabemos. São cegas; estão equipadas com células que as ajudam a distinguir mais claridade de menos claridade, mas isso é tudo. A verdade é que continuamos a saber muito pouco sobre as medusas.
Que tamanho elas atingem?
Muitas medusas são milimétricas. Outras atingem diâmetro de 30 cm na umbela (sua região esférica). Ainda outras, como a Nanomia cara, se alinham formando longas cadeias.
E até que ponto podem proliferar?
Há pouco tempo, o porto de Tóquio ficou paralisado durante dois dias, porque as medusas entupiam os canais de refrigeração dos barcos, bloqueavam os escapamentos.
Como se poderia combatê-las?
Com redes que as removam da água. Não existe outro método. E é pouco eficaz; as medusas se desfazem, e seus filamentos caem na água de novo.
Continuarão proliferando mais e mais?
Se a pesca excessiva continuar ao ritmo atual, só restarão no mundo nós e as medusas.
Urtiga do mar
Rossi fala com carinho das medusas. Lamenta que a pressão humana tenha causado a sua multiplicação até o extremo de convertê-las em odiosas para os banhistas. Os antigos gregos consideravam um mau presságio encontrar medusas em suas redes ("quanto mais medusas, menos pesca", diz Rossi) e as chamavam de "knidé" (urtiga), urtiga do mar.
Hoje, algumas espécies trocaram de habitat, transportadas na água que os barcos usam como lastro, o que facilita a expansão de espécies invasoras.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia