ONU: aquecimento ameaça um terço dos animais

05 de abril de 2007 • 18h36 • atualizado às 18h51

Richard Black

Londres


O aquecimento global já teve impactos significativos na natureza, indica o relatório das Nações Unidas que será divulgado nesta sexta-feira. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) - ligado à ONU - acredita que já é possível identificar como esses impactos na natureza estão afetando as sociedades.

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Os cientistas estão reunidos esta semana em Bruxelas para aprovar a segunda parte do relatório, que será divulgada na sexta-feira. A primeira parte do texto foi lançada em fevereiro, em Paris.

A BBC teve acesso a alguns esboços do texto que está sendo analisado pelos cientistas. Segundo os documentos, o IPCC vai afirmar que as sociedades terão muitas dificuldades para se adaptar a todas as mudanças prováveis no clima.

O painel deve afirmar que, se a temperatura média global subir 1,5º C acima dos níveis de 1990, um terço das espécies animais estariam ameaçadas de extinção.

Mais de um bilhão de pessoas correriam risco de sofrer com a falta de água, principalmente por causa do derretimento de camadas de gelo em montanhas, que funcionam como reservas naturais.

As discussões de última hora devem provocar algumas alterações pontuais no grau de certeza de cada uma das afirmações, mas o sentido geral deve ser mantido.

O trabalho científico revisado pelos especialistas do IPCC inclui mais de 29 mil dados observados na natureza. O IPCC acredita que 85% desses dados corroboram a tese do aquecimento global.

Mais certezas

Desde o último relatório do IPCC, em 2001, a quantidade de trabalhos científicos sobre o impacto do aquecimento na natureza aumentou muito.

Além disso, modelos de computadores que prevêem o futuro do clima na Terra ficaram mais sofisticados, apesar de ainda haver incertezas sobre a sua precisão. Alguns modelos ainda são incapazes de reproduzir alguns processos físicos.

A combinação de mais informações empíricas com melhores modelos permite que cientistas possam ter uma visão mais detalhada sobre o que está acontecendo em diferentes partes do mundo e sobre o que deve acontecer no futuro.

"O que nós vimos é que a evidência dos impactos da mudança climática é muito mais precisa, muito mais confiável", disse o diretor do IPCC, Rajendra Pachauri.

"Muitas das incertezas foram resolvidas; e elas confirmam que os mais pobres entre os pobres são os mais provavelmente atingidos pelos impactos da mudança do clima."

Água fresca é, provavelmente, o item mais sério que afetará as sociedades. Complexos montanhosos - como Himalaia, Andes e os Alpes - agem como reservatórios naturais, aprisionando a chuva e o gelo do inverno, e soltando água gradualmente no verão.

Há sinais de que as geleiras estão diminuindo em todos esses lugares. Um estudo prevê que 75% das geleiras alpinas desaparecerão até o final do século.

Na medida em que o gelo desaparece, inundações na primavera e no outono se tornam mais recorrentes, com maior risco de seca no verão. O IPCC deve mostrar que há "muita confiança" dos especialistas nesses dados. O relatório também vai indicar inundações mais freqüentes nas cidades litorâneas.

Outro impacto significativo na sociedade humana previsto é a redução de terras propícias para agricultura em grande parte do planeta. A produtividade agrícola na África e na maior parte da América do Sul e da Ásia pode ser afetada.

Aumentos da temperatura média de cerca de 1º C devem beneficiar a agricultura em algumas regiões, como Nova Zelândia, Rússia e América do Norte, mas elevações acima disso podem afetar outras partes do mundo.

EUA x Europa

Alguns observadores de temas climáticos há anos sustentam que o combate ao aquecimento global deveria ser focado em proteger sociedades e sistemas naturais de secas e inundações, em vez das reduções nas emissões de gases.

O IPCC, no entanto, deve concluir que "a mera adaptação não será suficiente para enfrentar todos os efeitos projetados da mudança climática, principalmente no longo prazo, na medida em que esses impactos se tornam maiores".

Sociedades mais pobres devem ser as mais atingidas, já que elas não têm recursos para implantar medidas de proteção. Adaptar os impactos do clima, na visão do IPCC, deve ser acompanhado de medidas de reduções de emissões.

O relatório já levou a uma discussão entre os Estados Unidos e a União Européia. O comissário europeu para o Meio Ambiente, Stavros Dimas, condenou na segunda-feira a "atitude negativa" dos Estados Unidos contra tratados internacionais sobre clima, dizendo que uma mudança de postura é "absolutamente necessária".

O embaixador americano para a União Européia, Boyden Gray, respondeu que diferenças transatlânticas não são "tão grandes", apesar de o presidente americano, George W. Bush, ter dito que os Estados Unidos estão "fazendo o suficiente".

Esta é a segunda parte do relatório, que está sendo divulgado em quatro segmentos diferentes ao longo do ano. É o quarto relatório do tipo. Em fevereiro, a primeira parte do relatório concluiu que, com 90% de probabilidade, as atividades humanas são responsáveis pelo aquecimento observado desde 1950.

A terceira parte, que será divulgada em maio na Tailândia, vai tratar de formas de impedir o aumento da concentração de gases nocivos ao ambiente.

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