Urina de dinossauro quase vira calçada em SP

11 de fevereiro de 2007 • 18h03 • atualizado em 12 de fevereiro de 2007 às 10h30
A pedra extraída mostra uma imagem da urina que escorreu e foi conservada em razão das condições climáticas da época  Foto: Cláudio Dias/Especial para Terra
A pedra extraída mostra uma imagem da urina que escorreu e foi conservada em razão das condições climáticas da época
11 de fevereiro de 2007
Foto: Cláudio Dias/Especial para Terra

Cláudio Dias
Direto de Araraquara

São Paulo


Os dinossauros urinavam? A pergunta parece simples e certamente geraria uma resposta rápida da maioria das pessoas: é claro. Mas, até 2003, não existia nenhuma prova científica que justificasse tal afirmação. Não existia, pois o paleontólogo e professor Marcelo Adorna Fernandes, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e sua equipe descobriram, em Araraquara, no interior de São Paulo, uma amostra batizada de Urólito, dos radicais gregos Uro - urina e Lithos pedra, ou urina de pedra.

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A prova foi encontrada durante a retirada de placas de arenito da pedreira São Bento, em Araraquara. A descoberta ocorreu quando o pesquisador fazia um trabalho no local buscando icnofósseis - pegadas e vestígios de seres pré-históricos deixados em rochas fossilizadas. As camadas sobrepostas de arenito - que mantém os icnofósseis - eram retiradas na utilização de placas em calçadas em uma cidade vizinha.

Para Fernandes, a região de Araraquara era habitada por um dinossauro denominado Ornitópode, batizado de pés de aves. Acreditava-se que o animal medisse até 5 m de comprimento com cerca de 3 m de altura. "Achamos que esse Ornitópodo foi que deu origem ao urólito", diz o paleontólogo. A pesquisa sobre a urina do dinossauro foi acompanhada pela bióloga Luciana Fernandes, da UFSCar, e pelo geólogo Paulo Roberto Souto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A prova da urina trata-se de duas estruturas, cada um com 34 cm de comprimento - com pequenas crateras elípticas de escavação - provocadas pelo impacto de líquido em queda, com sedimentos depositados pela ação da gravidade em um plano inclinado. Para o pesquisador, não há como confundi-las com pegadas que têm como marca uma elevação semelhante a uma meia-lua nas bordas. Além disso, o material pode ter sido conservado porque os dinossauros Ornitópodes (herbívoros bípedes) e terópodes (carnívoros) caminhavam pelas dunas do paleodeserto compactando a areia.

O teste feito com a areia da própria pedreira mostra claramente que a marca encontrada é um líquido. Mas como provar que esse líquido era urina? Para Fernandes, é muito simples. A chuva não acumulava em um ponto único dessa maneira na areia e, naquela época, não existiam árvores com folhas capazes de reter a água da chuva possibilitando essa queda brusca ao chão. "Estudos referentes à 'palcofauna' da região atestam a presença de pequenos mamíferos e de dinossauros. Assim, o urólito só poderia ter sido provocado por animais de médio ou grande porte como os dinossauros".

Antes, os paleontólogos acreditavam que os dinossauros excretassem em forma sólida. Agora, existe prova de que eles urinavam líquido. Segundo o paleontólogo, biologicamente também já fora comprovado que alguns dinossauros evoluíram para as aves. "Se os compararmos com um avestruz, que é uma ave e urina, o processo faz sentido. É que o avestruz tem uma espécie de bexiga que armazena uma estrutura para absorção de líquido. Quando tem abundância de água, ele elimina esse excesso em forma de urina. Pode ser que esses dinossauros, em um ambiente desértico, poderiam ter a mesma capacidade".

A peça estava depositada na casa do professor e deve fazer parte de um museu a ser criado na região. Pesquisadores de países da América do Sul, Europa, Oceania, Ásia e Estados Unidos ainda procuram informações sobre a pesquisa atestada pela Revista Brasileira de Paleontologia.

A região de Araraquara fez parte do maior deserto de areia da história geológica do Planeta. No final do período jurássico e início do cretáceo, há aproximadamente 140 milhões de anos, a região que vai do Sul de Minas Gerais até o Uruguai foi uma zona desértica de 1,5 milhão de km quadrados.Essa região era povoada por vertebrados e invertebrados, cujos rastros são pesquisados pela equipe do paleontólogo Marcelo Fernandes.

Redação Terra
 
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