Artista constrói casa de pedra "ecologicamente correta"

12 de julho de 2009 • 13h45 • atualizado em 13 de julho de 2009 às 09h52
Casa de Pedra se tornou referência turística no balneário de Jacaraípe, em Serra Foto: Alex Cavalcanti/Especial para Terra
"Casa de Pedra" se tornou referência turística no balneário de Jacaraípe, em Serra
10 de julho de 2009
Foto: Alex Cavalcanti/Especial para Terra

Alex Cavalcanti

Direto de Vitória


Imagine viver numa casa sem televisão, tomar banho frio todos os dias e ainda por cima ver seu lar se transformar em atração turística. Pois foi exatamente isso que aconteceu com o artista plástico Neusso Ribeiro, um capixaba que vive no balneário de Jacaraípe, em Serra, município da região metropolitana de Vitória.

A residência de Neusso, conhecida na região como "Casa de Pedra", foi erguida ao longo dos últimos 18 anos. Amante da natureza e autodidata, Neusso foi construindo, pouco a pouco, a casa ecologicamente correta que se tornou uma referência inclusive entre as escolas da região, que organizam excursões com alunos.

As paredes e colunas foram erguidas com pedras da região, encaixadas uma a uma. Para as janelas e portas, o morador também recorreu à natureza. Apenas as dobradiças e fechaduras foram feitas com material aproveitado de demolições. "Cada vez que você vai na serralheria e compra um metro cúbico de madeira, significa que mais uma árvore foi derrubada na floresta. Aqui, eu só uso troncos mortos que acho pela mata", explica Neusso.

Sem conhecimentos de técnicas de construção, Neusso ergueu a casa em forma de chalé seguindo o instinto. "Eu queria ficar perto da natureza e ela está aqui. Sinta a energia deste lugar", afirma.

Mas não seria possível construir uma casa só com troncos. Por isso, outros materiais foram incorporados. No chão, cacos de vidro e cerâmica são harmoniosamente dispostos formando mosaicos e mandalas. Nas janelas, pedaços de vidro. Para garantir a ventilação, grandes janelas e pé direito duplo. E muito espaço para o artesanato de Neusso, que faz esculturas em madeira.

"As pessoas me chamam de artista, mas eu sou um 'fazedor de coisas'. Olho para um toco e vejo a forma que está ali. Vejo um pedaço de madeira e imagino como aquilo pode se tornar um objeto útil", explica Neusso. O exemplo dele fez tanto sucesso que outras casas na região começam a adotar, pouco a pouco, as soluções encontradas pelo artista. Poucos moradores tiveram coragem de adotar o modelo radical de Neusso, mas algumas construções na região começam a utilizar, cada vez mais, materiais reciclados. Além disso, uma nova construção, também obra de Neusso, começou a atrair os olhares.

Com o crescimento da popularidade e o aumento das visitas, o artista decidiu transformar toda a Casa de Pedra em espaço cultural e construir uma nova residência, a apenas 150 m da primeira. É claro que a nova casa segue a mesma linha: aproveitamento máximo do que é oferecido pela natureza, integrando a casa ao terreno.

"Nenhuma árvore foi derrubada aqui. A casa se molda ao terreno e ao espaço. Essa pequena clareira já existia e a casa teve que se encaixar no espaço que a natureza determinou", conta o artista. A nova "casa de pedra" é mais ousada em suas soluções. No banheiro, um antigo pára-brisa vira janela, com vista para o mar. E se o banho for durante a noite, um teto de vidro reciclado, que já foi parte de uma vitrine, garante uma visão privilegiada do estrelado céu da região.

"Rapaz, é impossível não se sentir energizado aqui. Imagine tomar banho vendo o mar e as estrelas", comenta entusiasmado o dono da casa, deixando claro que não sente falta de água quente no chuveiro. "Água fria é bom para a saúde", completa.

"Minha arte é vida após a morte"
Além da preocupação com a utilização de material reciclado em suas construções, Neusso toma outras atitudes que ajudam a preservar o meio ambiente. Na sua nova casa, carinhosamente chamada de palafita (por causa da pequena varanda no segundo andar, equilibrada sobre estacas de madeira), Neusso tomou outras medidas ecologicamente corretas.

A água, por exemplo, não vem da rede pública de abastecimento. No lugar da água tratada, o artista optou por um poço, cavado por ele mesmo, e garante que a água da nascente é mais saudável. "Não tem produto químico, está sempre fresca e é ótima para a saúde", afirma. Os dejetos do banheiro são direcionados para uma fossa, cavada em local afastado onde ele acredita que não há risco de contaminação do lençol freático.

O lixo também é cuidadosamente selecionado. A parte orgânica vira adubo para as inúmeras plantas da propriedade. E os poucos materiais industrializados (vidros e metais) são aproveitados na própria construção ou doados para outros artesãos, que criam peças artísticas como mandalas e pequenas esculturas. "Eu trabalho apenas com madeira, mas há outros artesãos que fazem coisas belíssimas com outros materiais", explica Neusso. Assim, ele explica, é possível colocar em prática seu lema: "minha arte é vida após a morte".

Só luz e som
A única "modernidade" admitida pelo artista é a energia elétrica, utilizada apenas na iluminação e para ligar um aparelho de som. Não há TV, nem telefone, muito menos computadores e internet. "Tenho e-mail, mas acesso a internet na casa de meu primo", explica o artista. E para quem acha que é difícil viver assim, ele deixa uma reflexão: "As pessoas estão preocupadas demais em consumir, em possuir. Eu não tenho nada e preciso de muito pouco para viver. Esse pouco, tiro da natureza e do meu trabalho. E ganho muito em qualidade de vida", finaliza Neusso.

Especial para Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »