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Formigas fazem trapaças para reproduzir, diz estudo

26 jan 2009
11h16

Caso uma formiga operária ouse se reproduzir na presença da rainha, suas irmãs conseguem identificar a tentativa de trapaça pelo faro e atacam. No estudo, cientistas descobriram que, tipicamente, apenas as rainhas são capazes de produzir descendentes em um formigueiro. Os filhos e as filhas-rainhas descendentes voam para outros locais, na esperança de se reproduzirem e formar novas colônias, enquanto as filhas operárias permanecem para construir o formigueiro e cuidar da próxima geração.

Tipicamente, apenas as rainhas são capazes de produzir descendentes, em um formigueiro, e os machos morrem depois do acasalamento
Tipicamente, apenas as rainhas são capazes de produzir descendentes, em um formigueiro, e os machos morrem depois do acasalamento
Foto: National Geographic

As formigas operárias são biologicamente capazes de uma forma de partenogênese, o processo que permite que uma fêmea produza descendentes sem a colaboração de um macho. Mas quando o tentam, seus corpos produzem compostos químicos conhecidos como feromônios, que as demais formigas operárias são capazes de detectar usando suas antenas.

"É basicamente uma forma de faro, mas não faro da maneira como nós, seres humanos, o entendemos", disse Jurgen Liebig, da Universidade Estadual do Arizona, um dos co-autores do estudo. Caso a colônia não disponha de uma rainha, as formigas operárias estão autorizadas a ter bebês, explicou Liebig. Quando uma rainha está presente, no entanto, apenas ela tem a autorização para produzir o feromônio que sinaliza uma situação de fertilidade. Se uma formiga operária tentar "trapacear", suas irmãs a restringem fisicamente de maneira a impedir que se reproduza com sucesso. Um relatório sobre o trabalho foi publicado na versão online da revista Current Biology.

Química animal
Estudos anteriores demonstravam a existência de uma correlação entre o comportamento de policiamento reprodutivo de uma formiga e a presença desses feromônios, de modo que havia fortes motivos para acreditar que os compostos químicos é que serviam de indicadores para elas. "O problema é que ninguém havia sido capaz de demonstrar o fato", disse Liebig.

A equipe do pesquisador utilizou nos testes a espécie de formiga conhecida como Aphaenogaster cockerelli, porque ela utiliza uma versão simples do composto, facilmente utilizável pelos cientistas. Quando Adrian Smith, estudante de pós-graduação e diretor do projeto, aplicou o composto sobre formigas operárias em volume semelhante ao que ocorre naturalmente, elas foram atacadas por suas irmãs.

"Quando usamos um produto químico diferente, não específico para essas trapaceiras reprodutivas, o efeito foi nulo, de modo que ficou claro que era o composto específico que as identificava como trapaceiras na reprodução", disse Liebig.

Eu vs. Nós
Les Greenberg, da Universidade da Califórnia, em Riverside, disse que a capacidade de manipular os sinais químicos das formigas artificialmente deveria também ajudar a desvendar outros sistemas de comunicação usados pelos insetos.

"O estudo é um exemplo fascinante de como os insetos sociais mantêm a ordem em suas sociedades. A análise dos demais comportamentos, como as hierarquias de dominação e o reconhecimento de companheiros de colônia, deve ser possível com essas mesmas técnicas", declarou Greenberg.

Liebig acredita que seja possível traçar certas comparações entre o comportamento das formigas em um formigueiro e as interações sociais humanas. "Creio que seja uma característica de qualquer sociedade a existência de uma certa tentação a trapacear", disse ele. "Temos o mesmo tipo de problema entre as formigas: há os interesses do indivíduo e os interesses da colônia. Se cada um seguir apenas seu interesse individual, os benefícios da cooperação desaparecem".

Mas Mark Deyrup, um pesquisador sênior de biologia na Estação Biológica Archbold, na Flórida, questiona se esse tipo de observação pode mesmo ser aplicado de forma tão exata ao comportamento social humano. "Nas sociedades humanas aqueles que assumem os papéis e os privilégios de um líder sacramentado mas que está funcionando mal podem, na verdade, promover a estabilidade social", disse Deyrup.

Ainda assim, ele descreveu a nova pesquisa como "impressionante", "fascinante" e "especialmente elogiável por seu acompanhamento meticuloso dos percursos de causa e efeito". Deyrup, Greenberg e Liebig acreditam que os feromônios referentes a status social podem desempenhar papel semelhante no caso de outros insetos sociais, entre os quais possivelmente certas abelhas e vespas.

National Geographic

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