Ciência

publicidade
12 de janeiro de 2010 • 12h01 • atualizado às 12h41

Estudo: resfriamento na América do Norte mascara aquecimento

Novas simulações de computador sugerem que a queda na temperatura do continente foi decorrente de um resfriamento atipicamente longo do oceano Pacífico, induzido pelo fenômeno La Niña
Foto: National Geographic

As temperaturas médias na América do Norte caíram em 2008 - o que parece contradizer a teoria do aquecimento global. Mas não é o caso, cientistas dizem. O resfriamento, causado por mudanças naturais na circulação global do ar, temporariamente mascarou os efeitos do aquecimento global, que está se agravando, afirma um novo estudo.

Novas simulações de computador sugerem que a queda na temperatura do continente foi decorrente de um resfriamento atipicamente longo do oceano Pacífico, induzido pelo fenômeno La Niña.

Durante o fenômeno, a temperatura da superfície do mar no leste tropical do oceano Pacífico cai, às vezes até 4 oC abaixo do normal. A La Niña é formada por condições que acontecem de anos em anos e costuma durar cerca de um ano. A que começou em 2007, no entanto, durou cerca de dois anos, disse a líder do estudo Judith Perlwitz, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA na sigla em inglês).

A La Niña de dois anos afetou os padrões das correntes de ar e dos chamados rastros de tempestade na América do Norte. "Se temos temperaturas de superfície do mar mais frias no Pacífico tropical, elas geram padrões de circulação na atmosfera que fazem com que o ar frio vá para a América do Norte", Perlwitz disse.

David Easterling, climatologista da NOAA que não esteve envolvido no novo trabalho, acrescentou que embora as temperaturas de 2008 na América do Norte tenham sido mais frias que a média, globalmente 2008 ainda foi um dos anos mais quentes já registrados. "As pessoas muitas vezes consideram apenas o clima em sua localidade e não o panorama global", Easterling disse.

Temperaturas coincidentes
A equipe usou temperaturas reais da superfície do mar em 2008 para modelar a resposta atmosférica e calcular a temperatura anual do ar na superfície da América do Norte em 2008. As temperaturas simuladas coincidiram com as temperaturas de superfície observadas.

Por exemplo, tanto o mapa real quanto o do modelo de computador mostraram que o noroeste da América do Norte esteve mais frio em anos anteriores, segundo o estudo, publicado em 8 de dezembro no periódico Geophysical Research Letters.

A equipe também examinou outras possíveis explicações para a queda de temperatura, como erupções vulcânicas e atividade solar. No entanto, não ocorreram erupções que pudessem explicar o resfriamento observado.

E apesar da atividade solar ter sido a menor em 11 anos em 2008, a influência do sol foi pequena demais para explicar as temperaturas frias, concluiu a equipe. Dado viciado Peter Stott, chefe de monitoramento e atribuição do clima do Met Office do Centro Hadley, o serviço nacional do clima no Reino Unido, não esteve envolvido no estudo.

A nova pesquisa é uma explicação convincente do período frio na América do Norte em 2008, Stott disse. "O estudo mostra muito claramente como o padrão observado das temperaturas de superfície do mar em 2008 levou a temperaturas mais frias nos Estados Unidos em relação a anos recentes." O aquecimento global não significa que todo ano será quente, ele acrescentou.

Por exemplo, os cientistas muitas vezes comparam os padrões de temperatura sob o aquecimento global a um jogo em que os dados estão viciados: nem todo lançamento de dados irá resultar em seis duplos, mas isso irá acontecer com mais frequência do que se o dado não tivesse sido adulterado.

Os humanos, de fato, viciaram o dado do clima despejando gases do efeito estufa na atmosfera, dizem esses especialistas. Efeitos naturais como a La Niña sempre irão garantir anos mais frios do que o normal durante a tendência do aquecimento global, mas a definição de "normal" irá gradualmente ficar mais quente à medida que as temperaturas médias da Terra se elevarem, Stott disse.

"As pessoas se ajustam a novos níveis, e sempre haverá variabilidade", disse Kevin Trenberth, cientista atmosférico do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, que também não participou da pesquisa. "O aquecimento global não significa um aquecimento incessante ano após ano em todos os lugares."

Tradução: Amy Traduções

National Geographic