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15 de julho de 2008 • 10h14 • atualizado em 16 de Janeiro de 2009 às 17h41

Novas fotos mostram vulcões e campo magnético em Mercúrio

Imagens obtidas em Mercúrio revelam uma superfície dinâmica, marcada por crateras e vulcões
Foto: Cortesia da Nasa/APL / National Geographic
 

O planeta Mercúrio está repleto de vulcões e de outras surpresas, revelam dados iniciais da espaçonave Messenger, da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos - a primeira a conduzir uma investigação aprofundada do menor planeta do Sistema Solar, nos últimos 30 anos. A nave Messenger é a segunda enviada da Terra a Mercúrio, depois da missão norte-americana Mariner 10, que pousou no planeta em 1973.

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As imagens obtidas em Mercúrio revelam uma superfície dinâmica, marcada por crateras e vulcões. Também apontam para novos dados quanto ao campo magnético de Mercúrio, que espelha o da Terra mas em escala muito menor. Além disso, mostram também falhas geológicas generalizadas, relíquias de um tempo no qual a superfície do planeta, já congelada, passou por um colapso espetacular, por sobre um núcleo ainda ardente mas em retração.

Uma série de estudos que analisam a passagem da espaçonave pela região de Mercúrio foi publicada pela revista Science.

James Head, geocientista planetário da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, e principal autor de um dos estudos, disse que, ao contrário do que aconteceu na Terra, os traços dos anos de formação de Mercúrio não estavam ocultos pelo efeito da erosão e dos elementos sobre as formações geológicas. "É um capítulo que falta na história da Terra¿, ele afirmou. ¿Mercúrio agora poderá passar a ocupar o lugar que merece no estudo planetário comparativo".

Vulcões e impactosAs questões sobre a atividade vulcânica de Mercúrio remontam aos primeiros estudos conduzidos sobre a Lua, aponta Head. Algumas das áreas de relevo mais elevado da Lua apresentavam uma coloração escura, em contraste com as regiões circundantes, devido a fluxos de basalto vulcânico, de acordo com os trabalhos de pesquisadores anteriores.

Em outras áreas, porém, era impossível distinguir as planícies e os altiplanos com base na coloração. Quando a espaçonave Apollo 16 pousou perto de um desses planaltos, os astronautas puderam contemplar "processos de impacto em praticamente toda a região. As planícies lisas na verdade deviam essa consistência aos resíduos ejetados dos planaltos de impactos vizinhos", disse Head.

Assim, quando a espaçonave Mariner 10 passou por Mercúrio nos anos 70 e observou uma situação semelhante de baixo contraste entre as áreas mais baixas e as mais altas da superfície, isso levou cientistas planetários a desenvolverem a teoria de que o planeta também tinha sofrido um número incalculável de impactos. Parte da missão da Messenger era colocar em teste essa teoria.

"Nós absolutamente pudemos ver provas conclusivas, de um tipo que antes não havíamos localizado - as fendas vulcânicas", disse Head. A Messenger, ou Mercury Surface, Space Environment, GEochemistry and Ranging - veículo de pesquisa da superfície e ambiente espacial, geoquímica e mensuração de Mercúrio - também enviou imagens de depósitos estranhos, em formato de rim, que podem ter origem vulcânica, bem como de grandes crateras de impacto perto da bacia de Caloris, a mais recente das bacias de impacto de grande porte conhecidas em Mercúrio.

Magnetismo planetárioMas o que está acontecendo sob a superfície do planeta é que deixou os cientistas planetários realmente intrigados. A Terra e Mercúrio são os dois únicos planetas rochosos que ainda dispõem de um campo magnético, ainda que no caso de Mercúrio ele seja 100 vezes menos intenso que o da Terra.

A Lua e Marte apresentam algumas regiões e algumas rochas magnetizadas - talvez os vestígios finais de um magnetismo que anteriormente cobria toda sua área. O campo magnético de Mercúrio talvez signifique que o núcleo do planeta está em estado parcialmente derretido, e libera energia à medida que se resfria e que os fluidos internos se movimentam - um fenômeno conhecido como "dínamo". Ou talvez o que está sendo detectado sejam os últimos suspiros de energia liberados por uma crosta que já se solidificou por inteiro.

"Com os dados obtidos até hoje, não posso formar uma hipótese clara sobre a origem do campo magnético", disse Jean-Luc Margot, da Universidade Cornell, o diretor científico do projeto Messenger, que conduziu um estudo sobre o assunto em 2007 mas não está envolvido com os relatórios publicados pela Science. "Sabemos que um núcleo parcialmente derretido é necessário para que haja um dínamo. Sabemos que o núcleo do planeta está parcialmente derretido. Disso não decorre que um dínamo atualmente em atividade esteja gerando o campo magnético".

Brian Anderson é especialista em física espacial na Universidade John Hopkins e principal autor de outro dos novos estudos. "O fato de que o campo magnético parece ser muito simples e não tenha variado em termos de força desde a visita da Mariner 10 pareceria limitar as possibilidades em termos de modelos viáveis de dínamo", de acordo com Anderson.

Os pesquisadores também localizaram mais falhas geológicas geradas por deslizamentos do que foi o caso na missão Mariner 10, revisando as estimativas de até que ponto Mercúrio foi comprimido em seus anos iniciais. Os números mais recentes propõem uma compressão um terço mais intensa do que a calculada originalmente. Isso significa que o planeta em dado momento começou a se contrair sob si mesmo, e passou por uma redução dramática de tamanho enquanto encolhia, sugerem os cientistas do projeto Messenger. As rugas resultantes em sua superfície podem apresentar comprimento de até 600 quilômetros.

Mais para verOs pesquisadores esperam revelar mais sobre o movimentado planeta ainda este ano. Durante a próxima passagem da Messenger por Mercúrio, no final de 2008, a expectativa é de que a espaçonave obtenha imagens de 30% da superfície do planeta. Enquanto isso, a Agência Espacial Européia (ESA) está planejando lançar em 2013 a missão BepiColombo, que será composta por dois veículos orbitais cuja missão será estudar o campo magnético do planeta.

Anderson acredita que quanto mais missões, melhor, porque Mercúrio continua a ser um lugar muito misterioso. Há, por exemplo, o caso do ferro desaparecido. Mesmo que Mercúrio seja composto por mais de 60% de ferro, em termos de peso, o minério é relativamente escasso na superfície do planeta. Isso é incomum, se comparado aos demais planetas nas órbitas internas do Sistema Solar. E um relatório sobre estudo comandado por Thomas Zurbuchen, da Universidade do Michigan em Ann Arbor, revela que a superfície de Mercúrio está gerando um grande volume de partículas de ferro dotadas de carga que cercam o planeta e formam uma cauda longa, semelhante à de um cometa.

"Você vê partículas de ferro borbulhando nas atmosferas de Vênus, da Terra e de Marte, e até mesmo, em menor quantidade, na Lua", disse Anderson, "mas essa é a primeira vez que o vemos borbulhando na superfície mesma do planeta".

Tradução: Paulo Migliacci ME

National Geographic