Ciência

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16 de agosto de 2012 • 06h40 • atualizado às 09h22

Cientistas identificam vírus fatal que faz cobras darem nós em si mesmas

A doença fatal afeta cobras em cativeiro, fazendo com que elas deem nós em si mesmas
Foto: Elliot Jacobson/Universidade da Flórida / BBC Brasil

Um estudo recém-publicado nos Estados Unidos identificou o vírus que parece ser o causador de uma doença fatal que afeta cobras em cativeiro, fazendo com que elas deem nós em si mesmas e percam seu controle motor. O mal, chamado Doença do Corpúsculo de Inclusão Viral (IBD, na sigla em inglês), existe há décadas, mas não tem cura e atinge cobras constritoras como jiboias e sucuris.

Quando doentes essas cobras passam a adotar um comportamento estranho, como ficar olhando fixamente para o céu, girar e até enrolar-se em nós. E, uma vez que estejam presas em si mesmas, elas não conseguem se desatar. A doença causa problemas respiratórios e uma paralisia muscular generalizada.

Há tempos suspeitava-se que o mal era causado por um vírus, mas até recentemente a natureza da doença era desconhecida. Agora, uma pesquisa feita por cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco, publicada no periódico mBio, acredita ter identificado o vírus, ao analisar amostras tiradas de cobras diagnosticadas com o IBD, usando técnicas de sequenciamento de DNA.

Origens
Em algumas das cobras identificou-se material genético estranho - como ácido nucleico -, parecido com o encontrado em vírus da família arenavírus. Essa família inclui vírus associados à febre hemorrágica em humanos. Mas não há nenhum indício de que esse vírus recém-descoberto possa passar de cobras a humanos. Os cientistas também conseguiram cultivar o vírus, a partir de amostras tiradas de uma das cobras.

O pesquisador Mark Stenglein, coautor do estudo, disse que "ainda não há evidência formal de que o vírus cause a doença, mas há uma boa correlação (entre o mal e a presença do vírus). Também é possível que outros vírus ou patógenos causem sintomas parecidos".

Os arenavírus podem ser divididos em dois grupos principais, com base na localização das espécies que eles afetam - vírus Novo Mundo vêm das Américas, e vírus Velho Mundo são encontrados na África e na Ásia. Geneticamente, porém, o vírus recém-descoberto é diferente desses dois grupos.

O editor do periódico, Michael Buchmeier, professor de doenças infecciosas na Universidade da Califórnia em Irvine, acredita que os vírus das cobras podem vir de vírus que precederam as ramificações Novo e Velho Mundo. A nova descoberta segue-se a uma pesquisa semelhante, publicada em abril de 2012 no periódico Infection, Genetics and Evolution, descrevendo o isolamento de um novo vírus que afeta cobras - este na Austrália -, mostrando sintomas bem parecidos aos do IBD. No entanto, o vírus isolado nesse estudo pertencia a uma família diferente, conhecida como paramixovírus.

Jim Welleham, professor da Faculdade de Veterinária da Universidade da Flórida, autor do estudo do paramixovírus, disse que "a epidemiologia desse vírus é diferente (do IBD)". Mas ele também é fatal. "(O paramixovírus) age rapidamente. Diversas cobras morreram em uma semana".

Contagioso
Não está claro como o vírus do IBD se espalha, mas ele é altamente contagioso entre cobras. Uma possível forma de transmissão é pela inalação - seja diretamente de outra cobra contaminada ou indiretamente, de solo contaminado ou pelo manuseio dos animais.

Por enquanto, a doença parece ser restrita a cobras em cativeiro. Mas alguns cientistas temem que a soltura de cobras criadas cativas possa, inadvertidamente, levar essa doença à natureza selvagem.

Já Wellehan opina que "esses vírus vêm infectando cobras atuais e seus ancestrais por pelo menos 35 milhões de anos. É possível deduzir que cobras selvagens também estão contaminadas".

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