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Caçadores de tesouros procuram "ouro dos nibelungos" na Alemanha

Popular na Idade Média, redescoberto no século 18, primeiro épico alemão inspirou artistas e caçadores de tesouros, além de contribuir para a formação da nação germânica. E permanece um dos mistérios do Rio Reno

2 set 2013
13h32
atualizado às 13h37
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Siegfried desperta Brunilde
Siegfried desperta Brunilde
Foto: Arte de Otto Donner von Richter / Gravura de R. Bong / Reprodução

Hagen von Tronje, vassalo do rei Gunther, dos burgúndios, leva 144 carros cheios de ouro, de Worms, sede do reino, até um lugar desconhecido no rio Reno. Trata-se do tesouro do lendário rei Nibelungo, de que Hagen se apoderara após assassinar o matador de dragões e herói Siegfried. Então – segundo narra a Canção dos Nibelungos, o primeiro épico heroico germânico – Hagen submerge o ouro no Reno.

Uma das poucas aventuras que restam
No início do século 13, um autor desconhecido registrou por escrito a narrativa que inclui um dragão, belas mulheres, o valente guerreiro Siegfried e uma eterna luta em torno de amor, fidelidade e traição. No entanto, a Canção é mais do que uma saga com elementos fantásticos, como sangue de dragão ou um elmo mágico. Ela tem um núcleo histórico, a decadência da raça dos burgúndios, no início do século 5º. Figuras como rei Gunther realmente existiram.

Então, o "ouro dos nibelungos" poderia ter existido? Até hoje, caçadores de tesouros sonham em encontrar seu esconderijo. O arquiteto Hans Jörg Jacobi, de Mainz, é um dos que são obcecados pelo tesouro. Porém o que o impele não é a perspectiva de riquezas, mas antes a emoção de resolver uma charada literária. Juntamente com seu falecido pai, ele procurou o esconderijo por cerca de 40 anos.

"É uma das poucas aventuras ainda possíveis", comenta Jacobi. Para ele, não se trata de um conto fantástico, embora admita: "É preciso acreditar na coisa". A Canção dos Nibelungos dedica apenas uma frase sumária ao local de onde Hagen supostamente lançou o ouro na correnteza: "Perto do Loche ele o afundou no Reno".

Busca obstinada
A palavra "Loche" já fascina Jacobi há quatro décadas, e ele acredita ter encontrado o local em antigos mapas cadastrais. "É um nome e se refere a Lochheim, um lugar que não existe mais hoje". Ele fica lá onde, até hoje, o Reno tem um de seus pontos mais profundos, o assim chamado "Schwarzer Ort" (Lugar Negro), nas proximidades do lugarejo de Gernsheim.

Lá o rio faz uma curva fechada. Além disso, o ponto está a apenas 20 quilômetros do antigo lar dos burgúndios, a cidade de Worms. Então, o ouro dos nibelungos estaria a 25 metros de profundidade? "Hoje, esse local fica em terra, ao lado do Reno", explica o arquiteto. Afinal, o rio se transformou ao longo dos séculos.

Com o auxílio de uma firma de perfurações, Hans Jörg Jacobi e seu pai chegaram a realizar uma escavação arqueológica nas cercanias de Gernsheim, na década de 70. No entanto, eles não encontraram o tesouro: a cerca de dez metros de profundidade, a broca esbarrou em jazidas de mármore. Mergulhadores tampouco encontraram quaisquer vestígios sob a água.

Mas para Jacobi nada disso é motivo para desistir. Até hoje ele guarda em casa grossos fichários com os resultados das medições. "Quero encontrar o tesouro e provar que a Canção dos Nibelungos está correta."

Símbolo ou história
A professora de Germanística Anna Mühlherr, da Universidade de Tübingen, igualmente não acredita que o ouro do Reno seja mera lenda. No entanto, "eu não utilizaria 'realidade histórica' como conceito oposto", argumenta. Para ela, o tesouro é um elemento narrativo, com o qual se ilustra a ascensão e queda de dinastias.

Esse elemento também aparece em outras sagas medievais. "O público deve compreender que não convém mexer com tesouros." No sentido metafórico, portanto, o poder do rei não devia ser colocado em questão. Ao fim da Canção dos Nibelungos não sobra ninguém vivo que saiba do paradeiro do tesouro. Mas isso não significa o fim da narrativa.

O ouro do Reno passou a ser um mito, e isso tem muito a ver com a história alemã. Embora gozasse grande popularidade na Idade Média, a Canção temporariamente caiu em total esquecimento. Em 1755 encontrou-se um velho manuscrito, e a partir daí artistas e literatos elevaram o poema à categoria de épico nacional alemão. Afinal, nada mais adequado para tal do que uma história de lealdade absoluta perante o próprio povo e o rei.

Em uma época em que ainda não existia um Estado alemão, o tesouro que repousava no fundo do "Pai Reno" tornou-se símbolo da unidade nacional. Pintores românticos, a exemplo de Moritz von Schwind, combinaram motivos de tesouro, como uma coroa dourada, com a bandeira preta-vermelha-dourada. O que, em meados do século 19 era um sinal do anseio de muitos revolucionários por um Estado alemão, são hoje as cores da bandeira nacional.

Da sátira à ópera
Também na literatura o tesouro dos nibelungos ganhou contornos nacionalistas. Na primeira metade do século 19, o poeta Ernst Moritz Arndt o descreveu como "fulgor do Reino Alemão". Porém também havia vozes contrárias, como o autor Heinrich Heine que, no poema Alemanha no verão de 1840, satirizava o mito nacional, inclusive a "coroa dourada".

O célebre compositor e poeta Richard Wagner dedicou até mesmo todo um ciclo operística a esse tesouro, a tetralogia O anel do Nibelungo, cujo "prólogo", O ouro do Reno, estreado em 1876, abre com as três Filhas do Reno vigiando a preciosidade no fundo do rio.

Ao desenvolver seu libreto, no entanto, Wagner orientou-se antes por sagas nórdicas do que pela Canção dos Nibelungos germânica, e criou novas personagens.

"Mais interessante que o pouso na Lua"
Hoje em dia a exploração artística do tesouro dos nibelungos perdeu a carga política, mas sua fascinação se mantém. Produções de TV, romances fantásticos, obras de arte ou o famoso Festival dos Nibelungos de Worms ocupam-se intensamente da temática.

As histórias em torno do tesouro chegaram até mesmo à República de Nauru, no Oceano Pacífico, que já foi colônia da Alemanha e que em 2003 cunhou uma moeda de ouro de dez dólares com os dizeres "Nibelungen Treasure".

E a caça ao ouro prossegue. Ao lado de Lochheim no Reno, cogitam-se outros possíveis locais para seu esconderijo, como um campo cultivado em Rheinbach, no estado da Renânia do Norte-Vestfália. Também lá, nada foi encontrado até hoje. Mas isso não faz mal, comenta Anna Mühlherr.

"Também o histórico-imaginário é parte de uma cultura. No mundo da imaginação, o tesouro é algo bem real." E, quem sabe, um dia ainda serão resgatados do Reno carros repletos de ouro. Para Hans Jörg Jacobi, tal evento seria "quase mais interessante do que o pouso na Lua".

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