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Após milhões de anos, fósseis raros são achados no Peru

29 jul 2010
10h04
atualizado às 16h03

Ao sul de Lima, nos desertos de Sacaco e Ocucaje, fósseis tão estranhos como cartilagens de tubarão, barbas de baleias, penas e escamas emergem após terem permanecido milhões de anos aprisionados entre os sedimentos.

Estas áreas áridas da região de Ica (200 quilômetros ao sul de Lima) são as jazidas fósseis de vertebrados marítimos do Mioceno (entre 23 e 5 milhões de anos de antiguidade) mais ricas do mundo, assegura à Agência Efe o paleontólogo peruano Rodolfo Salas em seu laboratório no Museu de História Natural da capital peruana.

Os amantes da paleontologia têm perante si todo um universo de fósseis raros, incrustados em rochas que contam a evolução de organismos ao longo de um período que remonta em alguns casos a até 40 milhões de anos atrás.

"Ocucaje não é um 'parque jurássico', é miocénico e cenozóico, mas não por isso menos interessante ou espetacular", afirma Salas, convencido de que o lugar ainda esconde "joias" únicas no mundo.

Entre os restos que já estão catalogados e expostos no museu, destacam-se as mandíbulas e vértebras de cartilagem fossilizadas de um tubarão "muito lindo", porque normalmente só se recuperam seus dentes e seu tecido se deteriora com facilidade, como explica o pesquisador.

Um caso controvertido foi o dos golfinhos com aparência de morsa, que fez os especialistas enfrentarem toda uma "crise de identidade animal": eles encontraram um ser que tinha a anatomia de um golfinho e características de morsa, com presas muito longas, um focinho muito curto e fossas nasais na parte dianteira.

Segundo Salas, este exemplar único foi encontrado nos anos 90 em Sacaco, o mesmo deserto onde também se conservaram penas e escamas, e inclusive carapaças e cascos de tartarugas vinculadas à tartaruga-caixão, um animal enorme.

Estes répteis têm um esqueleto que se solta logo após a morte, por isso não costumam fossilizar, salvo nestas áreas de propriedades tão particulares, explica Salas.

Na opinião do paleontólogo, que trabalhou na região durante 15 anos, o segredo da boa conservação dos fósseis está no ambiente marinho "muito superficial e de águas quentes" no qual viveram aqueles seres, onde não havia muito oxigênio e as partes moles apodreciam lentamente.

Com o tempo, os animais foram conservados sem "perturbações" e quando o mar retrocedeu muitos sedimentos se acumularam sobre as rochas até formar um deserto, em que os paleontólogos lutam para proteger os restos das mudanças de temperatura, dos ventos e da erosão.

Ao longo dos 50 quilômetros de sua parte mais extensa, Ocucaje oferece aos amantes da paleontologia a possibilidade de resgatar seres como uma preguiça aquática, um animal terrestre incomum que "preferiu" viver na água durante um tempo para se alimentar de algas marinhas.

Há semanas o pesquisador publicou junto a outros cientistas um estudo na revista Nature sobre o fóssil do Leviathan melvillei , antecessor das baleias modernas e considerado o maior depredador marinho que percorreu os oceanos há 12 milhões de anos.

No entanto se a ideia é só observar os restos como torcedor, algumas agências de turismo organizam visitas ao deserto de Ocucaje, indica à Efe o diretor de Patrimônio do Instituto Nacional em Ica, Rubén García.

No entanto, adverte, por enquanto a falta de orçamento impede que sejam levados a cabo projetos para valorizar Ocucaje, onde, além disso, há carência do controle e vigilância necessário em uma zona bastante extensa, de difícil acesso e com risco de ser depredada.

O paleontólogo Rodolfo Salas trabalha no laboratório do Museu de História Natural de Lima
O paleontólogo Rodolfo Salas trabalha no laboratório do Museu de História Natural de Lima
Foto: EFE
EFE   

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