"Autoengano" de Airbus pode ter causado acidente, diz analista

02 de junho de 2009 • 11h52 • atualizado às 12h33
Imagem de arquivo mostra modelo do Airbus desaparecido no Oceano Atlântico
Imagem de arquivo mostra modelo do Airbus desaparecido no Oceano Atlântico
01 de junho de 2009
AP

Donald MacNeil e Christine Negroni

Do New York Times


O desaparecimento de um jato da Air France no percurso entre o Rio de Janeiro e Paris, na noite de domingo, deixa aos investigadores de acidentes aéreos um mistério a deslindar, em uma situação na qual estão sofrendo de uma séria escassez de dados com os quais conduzir o seu trabalho.

O Airbus A330-200, que transportava 228 passageiros e tripulantes, aparentemente desapareceu em meio a uma forte tempestade de relâmpagos, mas os pilotos não enviaram quaisquer mensagens de que estivessem enfrentando uma crise.

O avião transmitiu diversos sinais automáticos de que estava enfrentando problemas com seus sistemas elétricos e, de acordo com uma informação, de que havia perdido a pressurização da cabine. Os sinais não foram enviados como mensagens de emergência, no entanto, e por isso demoraram horas a ser lidos pelo controle de terra, o que só aconteceu quando o controle de tráfego aéreo percebeu que a tripulação de avião não havia se comunicado pelo rádio no horário previsto de acordo com o cronograma rotineiro.

Enquanto começava a busca por destroços em uma vasta extensão de oceano entre a costa brasileira e a da África, os especialistas enfrentavam dificuldades para oferecer teorias plausíveis quanto a motivos para que um avião de passageiros moderno, construído para suportar incidentes elétricos e condições físicas muito mais severas do que aquelas usualmente encontradas na natureza, pudesse desaparecer de maneira tão silenciosa e tão misteriosa.

Não havia sugestões, na segunda-feira, de que a culpa pelo acidente pudesse ser atribuída a causas externas deliberadas como uma bomba, sequestro ou sabotagem. O que quer que tenha sido registrado sobre os minutos finais do avião em sua caixa preta talvez nunca venha a ser recuperado, porque a suposição é de que ela tenha desaparecido nas profundezas do Atlântico. Como é comum em vôos transoceânicos, o aparelho estava distante demais das costas para que seu trajeto pudesse ser acompanhado pelos radares brasileiros ou pelos do Senegal. Determinar se o seu posicionamento pôde ser capturado por satélites ou pelo radar de algum outro avião é algo que por enquanto não foi possível.

O vôo AF 447 da Air France deveria chegar ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, por volta das 11h10min, horário local. Os abalados parentes dos passageiros afluíram ao terminal 2D, onde a Air France estabeleceu um centro de crise na segunda-feira. Um padre de batina negra caminhava em meio ao grande número de policiais e jornalistas presentes a fim de oferecer consolo aos parentes das pessoas desaparecidas com o avião.

"A Air France está extremamente abalada, e toda a equipe da Air France está sofrendo", disse Pierre-Henri Gourgeon, o presidente-executivo da Air France, a jornalistas em Paris. "Gostaríamos de informar aos parentes das vítimas que estamos aqui para ajudá-los, e envidaremos todos os esforços para isso". O presidente Nicolas Sarkozy, da França, declarou que "foi um acidente trágico, e as chances de encontrar sobreviventes são ínfimas".

Havia pessoas de 32 nacionalidades a bordo, entre as quais 58 brasileiros, 61 franceses e dois norte-americanos, informou a Air France em uma declaração cuja base são informações fornecidas pelas autoridades aeronáuticas brasileiras.

O aparelho decolou do Brasil às 19h30min, horário local, e sua última comunicação verbal com o controle de tráfego aéreo aconteceu cerca de três horas mais tarde, às 22h33min, de acordo com um comunicado da agência de aeronáutica civil brasileira. Naquele momento, o avião estava voando a 10.600 metros de altitude e a uma velocidade 910 km/h.

Cerca de meia hora mais tarde, o voo aparentemente encontrou uma tempestade elétrica que causou "turbulência muito pesada", de acordo com a Air France. A última comunicação transmitida pelo aparelho foi registrada às 23h14min, e consiste de uma série de mensagens automáticas segundo as quais o aparelho teria sofrido um defeito no sistema elétrico. A agência de notícias Associated Press também reportou que o aparelho aparentemente havia sofrido uma perda de pressurização na cabine.

Autoridades brasileiras informaram que o avião desapareceu sobre o Atlântico, em algum lugar entre um ponto localizado 300 km a nordeste da cidade de Natal, na costa brasileira, e as Ilhas Cabo Verde, que ficam ao largo da costa africana. A área é conhecida como "as latitudes do cavalo", e nela se misturam as condições dos trópicos do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul, o que ocasionalmente cria tempestades de raios violentas e imprevisíveis que podem ascender até uma altitude de 16,5 mil metros, superior àquela que os jatos comerciais são capazes de utilizar.

Os especialistas não tinham idéia de como explicar possíveis danos fatais causados por raios ou uma tempestade tropical, já que os jatos de passageiros enfrentam ambos os fenômenos rotineiramente, a despeito dos esforços para evitá-los - tanto por preocupação de evitar nervosismo entre os passageiros quanto para maximizar a segurança do aparelho.

Os pilotos são treinados para voar por sobre ou em torno das tempestades de raios, e não atravessá-las. Brigitte Barrand, uma porta-voz da Air France, afirmou que o piloto do aparelho era altamente experiente, com mais de 11 mil horas de vôo, entre as quais 1,1 mil em jatos Airbus A330. "Uma situação completamente inesperada ocorreu a bordo daquele avião", disse Gourgeon à rede francesa de televisão LCI.

"Relâmpagos, por si sós, não bastam para explicar a perda de um aparelho, e o mesmo pode se dizer sobre a turbulência apenas", ele disse. "Trata-se sempre de uma combinação de fatores".

De acordo com algumas estimativas, jatos de passageiros são atingidos por raios pelo menos uma vez por ano. Mas a carga assim transmitida em geral percorre o revestimento de alumínio da fuselagem e se dispersa na cauda ou em uma asa. Os passageiros ficam isolados em um casulo interior sem condutividade elétrica, feito principalmente de plástico, e os equipamentos essenciais do avião ficam protegidos.

Granizo de grandes dimensões, que algumas tempestades de raios podem criar, já quebrou vidros ou lâminas de turbina em alguns aviões, ainda que incidentes desse gênero costumem ser reportados com muita rapidez pelos pilotos.

O avião desaparecido era relativamente novo, e entrou em serviço em abril de 2005. Sua última parada de manutenção em hangar aconteceu em 16 de abril, de acordo com a Air France. Nenhum avião de passageiros do modelo A330-200 havia passado por queda fatal no passado, de acordo com a Rede de Segurança na Aviação.

Mecanismo de "autoengano"
Hans Weber, presidente da Tecop, uma consultoria aeronáutica de San Diego, ofereceu uma hipótese sobre o incidente, com base no seu conhecimento de casos de perda severa de altitude em dois jatos da companhia aérea australiana Qantas, no ano passado.

O novo Airbus A330 é um avião do tipo "fly-by-wire", ou seja, um aparelho no qual os sinais que movimentam as superfícies de controle aerodinâmico são transmitidos por cabos elétricos a pequenos motores instalados nas asas, em lugar de serem transmitidos por cabos mecânicos ou tubulações hidráulicas.

Os sistemas fly-by-wire têm a capacidade de conduzir manobras automaticamente a fim de evitar uma queda iminente, e alguns dos aparelhos da Airbus não permitem que um piloto cancele a atuação desse mecanismo de autoproteção. Nos dois vôos da Qantas em questão, os sensores inerciais do aparelho enviaram informações incorretas aos computadores de vôo, o que fez com que estes tomassem medidas de emergência para corrigir problemas inexistentes, causando súbitos mergulhos dos aviões envolvidos.

Se um sensor inercial tivesse informado ao computador de que o avião estava próximo da velocidade de estol, ou seja, de perda da sustentação aerodinâmica, o que requer que o aparelho abaixe o seu nariz e mergulhe com o objetivo de retomar velocidade de voo, e se houvesse ao mesmo tempo uma forte corrente de vento em direção da superfície como parte da turbulência gerada por uma tempestade, "o aparelho enfrentaria dificuldades para se recuperar de uma combinação entre esses dois fatores", segundo Weber.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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