Visita do Papa

Visita do Papa

Segunda, 14 de maio de 2007, 18h33

Bento XVI sugere beatificar arcebispo assassinado

Bento XVI exaltou ontem a figura do arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980, qualificando-o como "grande testemunha da fé" e como "pessoa que merece a beatificação", de acordo com as agências de notícias internacionais. O Papa falou a bordo do avião que o transportava ao Brasil, na sexta viagem apostólica de seu pontificado. Romero foi assassinado aos 63 anos por militantes de extrema direita enquanto celebrava uma missa, no dia 24 de março de 1980, um dia depois de pronunciar uma homilia contra a repressão militar em El Salvador.

Durante o vôo, o Papa respondeu a perguntas dos repórteres sobre a América Latina - continente que abriga quase metade do 1,098 bilhão de católicos mundiais - e fez algumas reflexões sobre a teologia da libertação, cuja aura social, política e religiosa de "opção preferencial pelos pobres" continua cativando boa parte do catolicismo latino-americano. O papa João Paulo II condenou essa corrente de pensamento, considerando-a, em termos ideológicos, próxima demais do comunismo, a quem ele culpava por todos os males que assolaram sua Polônia natal.

Joseph Ratzinger, que nos anos 80 contribuiu para desarticular o movimento da teologia da libertação, em sua condição de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, argumentou que "a situação se alterou profundamente", com relação ao período em que surgiu o movimento, que teve entre seus pioneiros, nos anos 70, o brasileiro Leonardo Boff. "É evidente", argumentou o Papa, "que os milenarismos fáceis, segundo os quais basta uma revolução para criar as condições de uma vida completa, foram um erro, como todos sabem agora, e a questão passa a ser como a Igreja deve participar da luta pela justiça, algo que causa divisão entre os teólogos e os sociólogos".

O Papa a seguir defendeu "a ação de discernimento, para nos libertar do milenarismo e da politização", que a Congregação para a Defesa da Fé promoveu naqueles anos. De acordo com o pontífice, na Igreja Católica atual existe "espaço para debate legítimo" sobre a justiça social.

Sobre o arcebispo Óscar Arnulfo Romero, Bento XVI afirmou que "não se pode negar que tenha sido uma grande testemunha da fé e das virtudes cristãs, comprometido para com a paz e contra a ditadura; ele foi assassinado durante a consagração, e por tanto se trata de uma morte que serve como prova de fé". Para o Papa, o "problema é que uma corrente política deseja se apoderar injustamente de sua figura".

O Papa disse que não está informado sobre os detalhes do processo de beatificação do arcebispo Romero, que no momento está em análise, no Vaticano, pela Congregação das Causas dos Santos, mas garantiu que "está avançando bem".

A causa diocesana de beatificação de Romero começou no ano de 1985, e se concluiu em 1997, com o envio de toda a documentação à Santa Sé, onde o processo foi paralisado durante sete anos, o que gerou rumores sobre um possível incômodo da cúria romana com relação ao personagem. O processo foi reativado em março de 2005, 25 anos depois do assassinato.

O Vaticano justificou a suspensão temporário argumentando que queria discernir se Romero havia sido morto por motivos políticos ou por odium fidei (ódio à fé), o que faria dele um mártir. A conclusão, de acordo com o bispo italiano Vicenzo Paglia, que postula a causa de Romero, foi a de que "os atacantes dispararam porque odiavam a fé cristã de Romero, o bispo que mais elevou a voz em defesa dos salvadorenhos pobres e de tantas pessoas necessitadas, mortas porque ousaram se rebelar".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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