Atualizada às 08h52
Ticiana Giehl
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"Essa dualidade é quase inerente ao fato religioso. A experiência religiosa é complexa, mas tem duas características marcantes. Primeira: ela é intimidadora, causa medo. Segunda: ela é fascinante, atraente, produz felicidade. A visita do Papa se balizou entre ser temida e fascinante", analisou o professor Jorge Cláudio, especialista em Igreja Católica no Brasil e religiosidade da PUC de São Paulo.
Bento XVI mostrou ambas nas primeiras horas de visita ao País. Ainda na Base Aérea de Guarulhos (SP), onde fez seu pronunciamento de chegada ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Papa deu seu recado para um possível plebiscito sobre o aborto. "Estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio", disse.
Na mesma noite, quebrou o protocolo da viagem pela primeira vez para atender aos apelos de milhares de fiéis que se concentravam em frente ao Mosteiro de São Bento, onde ficou hospedado, e abençoou a multidão. A partir daí, Bento XVI não parou de surpreender o público: baixou o vidro blindado do papamóvel para acenar para as pessoas nas ruas de São Paulo e de Aparecida, andou em meio aos fiéis e foi abraçado por eles na Fazenda da Esperança, se locomoveu de papamóvel quando deveria estar a bordo de um carro fechado, saiu à sacada para abençoar o público tarde da noite.
Mas, em seus inúmeros discursos e pronunciamentos, o Papa não deixou de abordar temas polêmicos, em que reforçou a posição da Igreja e não se mostrou disposto a avançar como muitos católicos gostariam. Condenou o aborto, os métodos contraceptivos, os que não se casam oficialmente, os que criticam o celibato religioso, os que se deixam levar por outras religiões, seitas e pela mídia.
"O fato de Bento XVI ter sido muito duro na doutrina é decorrência de ele ser um líder mais idoso, comprometido com princípios gerais e menos atento a novidades", disse o professor. "Do ponto de vista doutrinário, ele não tocou as pessoas, mas os princípios. As situações novas não estão previstas".
"Por outro lado, por ser uma pessoa voltada para o povo, um sacerdote, o Papa precisava se deixar aceitar pelo contato, pelo encontro, e nesse ponto os brasileiros contribuíram para que ele se aperfeiçoasse. Ele saiu melhor Papa do que quando chegou".
Jorge Cláudio destacou dois momentos desse contato com os fiéis. O primeiro foi a missa de canonização de santo Antônio de Sant´Anna Galvão no Campo de Marte. "Ele deve ter se emocionado, não estava ali fazendo figuração", disse. O segundo foi o encontro com os dependentes químicos na Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá (SP). "Houve contato físico intenso, coisa que imagino que não exista em Roma. Mas ele se permitiu tocar e ser tocado pelas pessoas".
Também para o arcebispo de Aparecida, d. Raymundo Damasceno Assis, a visita do Papa ao Brasil serviu para desfazer a imagem que se tinha dele de uma pessoa severa e sempre distante. O arcebispo hospedou Bento XVI no Seminário Bom Jesus, em Aparecida (SP), onde ele passou dois dos seus cinco dias no Brasil. "Ele se sentiu muito bem recebido", afirmou.
Redação Terra
Bento XVI quebrou protocolos para se aproximar do público, mas fez discursos duros
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