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Ciclistas tomam ruas de Porto Alegre 1 ano após atropelamento

24 fev 2012
21h14
atualizado às 21h17
Mauricio Tonetto
Direto de Porto Alegre

Centenas de ciclistas se reuniram no final da tarde desta sexta-feira no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre (RS), para relembrar uma data trágica e ao mesmo tempo motivadora. No dia 25 de fevereiro de 2011, um grupo, identificado como Massa Crítica, foi atropelado pelo funcionário do Banco Central Ricardo Neis, 47 anos, enquanto pedalava pelo bairro. Na ocasião, 17 ciclistas ficaram feridos. Um ano depois, dezenas de pessoas se juntavam ao movimento pela primeira vez, muitas delas estimuladas pelo atropelamento, e pediam mais paz no trânsito e conscientização dos motoristas.

Jovens se preparam para passeio ciclístico que lembrou um ano do atropelamento coletivo no bairro Cidade Baixa
Jovens se preparam para passeio ciclístico que lembrou um ano do atropelamento coletivo no bairro Cidade Baixa
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

Veja situação das ciclovias no Brasil

"O incidente que ocorreu no ano passado estimulou o pessoal a comparecer e eu estou achando importante isso. Pedalamos da zona leste da cidade até aqui e cruzamos por muita gente de bicicleta", relatou o assistente de comunicação Rodrigo Hoff, 30 anos, que comprou sua bicicleta há três meses. "É uma mudança de hábitos, a gente não praticava nem esportes e resolvemos começar a pedalar. Ainda acho complicado a falta de ciclovias e o pouco respeito dos automóveis pelos ciclistas", disse a mulher de Rodrigo, Cristiane Lunardi, 29 anos, supervisora de logística.

Para o servidor público Guilherme Formiga, 28 anos, que usa a bicicleta diariamente há meses, ainda há "muito a melhorar". "É a primeira vez que eu participo do Massa Crítica e resolvi dar uma força. Eu ando de bicicleta há alguns meses e cheguei à conclusão de que é o meio de transporte mais barato e melhor para a sociedade. Mesmo com toda a mobilização, ainda há muito a melhorar."

Invasão de bicicletas
A pedalada de hoje é uma das atividades do Fórum Mundial da Bicicleta, evento que trouxe à capital gaúcha ativistas como o americano Chris Carlson, idealizador do Massa Crítica, e propõe debates e soluções de mobilidade urbana que favoreçam os ciclistas. A repercussão do acidente e do fórum atraiu o interesse de pessoas de várias faixas etárias, como o jovem Lucas Bischoff, 21 anos, que fazia sua estreia no Massa Crítica.

"Eu já tinha interesse em pedalar, desde que fiquei sabendo do atropelamento, e recém agora pude participar. Para mim, andar de ônibus só quando chove muito e carro nem tenho pretensão. Estou numa boa com a minha bicicleta. Eu acho que a segurança é proporcional ao quanto você leva a sério", ressaltou ele. De acordo com o fiscal de trânsito Rodrigo Braum, da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) de Porto Alegre, mesmo com o avanço do último ano, ainda não há condições de ciclistas e motoristas conviverem no mesmo espaço.

"Do atropelamento para cá, o movimento se tornou conhecido e tentamos apoiá-los, apesar de o grupo não gostar de fiscalização e polícia. O nosso motorista é mais agitado, mas venho notando um respeito crescente. Só que dividir a pista entre carros e bicicleta ainda não dá certo", afirmou ele. O fórum vai até o próximo domingo e, no sábado, um ato vai lembrar o primeiro ano do atropelamento no local onde Ricardo Neis atingiu o grupo.

Motorista atropela e foge
Um grupo de ciclistas que tradicionalmente percorre as ruas do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, foi atropelado por volta das 19h do dia 25 de fevereiro de 2011. Segundo a Polícia Militar, 100 ciclistas do movimento Massa Crítica seguiam pela rua José do Patrocínio, quando foram surpreendidos por um Golf preto na esquina com a rua Luiz Afonso. A maioria escapou do atropelamento, mas 17 ficaram feridos, sendo cinco com lesões, que foram encaminhados ao Hospital de Pronto Socorro.

A polícia disse que o atropelamento foi intencional e que o motorista do Golf acelerou várias vezes antes de derrubar os ciclistas. Após ouvir testemunhas, os policiais conseguiram a placa do veículo e identificaram o proprietário como Ricardo Neis, 47 anos, funcionário do Banco Central.

Ricardo Neis foi preso no dia 2 de março. Em depoimento à Polícia Civil, ele alegou legítima defesa, relatando que os manifestantes agiram com violência contra seu carro. De acordo com o polícia, as vítimas foram impedidas de se defender, uma vez que o motorista avançou com seu carro enquanto os ciclistas estavam de costas, sem esperar o golpe. As testemunhas do processo já foram ouvidas e a Justiça deve decidir se Neis irá para júri popular.

Fonte: Terra
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