Brasil

publicidade
14 de novembro de 2012 • 02h33 • atualizado às 09h40

Tio de Laudisio contesta Justiça australiana: 'tortura é crime'

A juíza Mary Jerram recomendou penas disciplinares aos policiais envolvidos na morte do jovem
Foto: Liz Lacerda / Especial para Terra
 

Liz Lacerda
Direto de Sydney

A polícia australiana foi responsável pela morte do estudante brasileiro Roberto Laudisio Curti, mas os policiais envolvidos na operação devem sofrer apenas punições disciplinares. A conclusão foi apresentada nesta quarta-feira pela magistrada Mary Jerram, que coordenou o inquérito. O tio da vítima apontou incoerência na análise da juíza e, em entrevista à Globo News, classificou "tortura" a ação da polícia no caso e deixou claro que a família irá recorrer da decisão.

Veja como funciona uma arma não letal

"A juíza criticou bastante o comportamento dos policiais. Em suas colocações, ela cita violência, brutalidade e uso excessivo de força. Ela disse que a ação dos policiais causou a morte. Na hora que ela chega à conclusão você tem uma quebra de raciocínio. Tudo que ela falou até então levava a uma ação criminal, mas ela apenas pede ações disciplinares extremamente duras e uma revisão completa do sistema de treinamento policiais. A tortura é um crime internacional. A tortura ficou claramente caracterizada nas audiências", declarou Domingos Laudisio, para quem existe espaço no direito internacional e na Justiça australiana para ter esse entendimento.

O cunhado do brasileiro, Michael Reynolds, também exigiu punições mais severas. "Queremos que os responsáveis pela morte do Roberto sofram as consequências pelo comportamento terrível que tiveram naquela noite. Fazendo isso, esperamos que outros jovens e suas famílias não sofram o que nós estamos sofrendo", disse. A família também cogita recorrer a tribunais internacionais. Na próxima semana, o tio do estudante deve ser recebido por autoridades do Itamaraty.

Roberto Laudisio Curti morreu no dia 18 de março deste ano, no centro de Sydney, depois de receber 14 disparos de armas de choque (taser). Ele foi perseguido por onze policiais, após ter sido acusado de roubar dois pacotes de biscoitos de uma loja de conveniência.

Punição disciplinar
A juíza Mary Jerram confirmou que Laudisio morreu ¿de causas indeterminadas, durante imobilização por membros da força policial do Estado de New South Wales¿, mas decidiu não encaminhar o processo à justiça criminal, recomendando uma punição disciplinar aos envolvidos. Esta, no entanto, depende de outra investigação, que será realizada pela Comissão de Integridade da própria polícia. "Existe um clamor da comunidade de que a polícia não deveria investigar os incidentes envolvendo policiais, mas isso é uma decisão que cabe às autoridades, não à magistrada", justificou Jerram.

Os policiais nunca foram afastados das atividades. "As ações da maior parte dos policiais foram imprudentes, perigosas e houve extremo abuso de força. Em alguns momentos, foram até cruéis. Roberto certamente consumiu uma droga ilícita, mas não cometeu nenhum delito grave e não representava risco para a segurança de ninguém. É impossível acreditar que ele morreria se não fosse pela ação policial¿, declarou.

A magistrada também condenou as contradições e a falta de credibilidade nos depoimentos dos policiais, mas acrescentou que eles erraram por inexperiência e nervosismo durante a operação. Em função disso, ela recomendou alterações no manual de conduta e no treinamento da polícia. ¿Precisamos garantir que as normas sejam claras e consistentes, considerando a imposição de limites ao uso do taser e do spray de pimenta. Os policiais foram tomados por uma atitude desgovernada, parecendo os protagonistas do livro 'O Senhor das Moscas' (no qual crianças, perdidas em uma ilha deserta, retornam à selvageria)", disse.

Em entrevista coletiva, o comissário de polícia Andrew Scipione pediu desculpas à família. ¿Isso foi uma trágica série de eventos¿, resumiu. Ele garantiu que a polícia vai adotar todas as recomendações da magistrada, mas afirmou que a punição dos policiais dependerá do resultado das investigações da Comissão de Integridade. A polícia tem prazo de um ano para apresentar um relatório à Corte.

Especial para Terra