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15 de agosto de 2012 • 08h31 • atualizado às 15h19

SP: 1º hospital público para animais do País tem grande procura

O dono de Lobinho procurou o primeiro hospital veterinário público do País para tratar o câncer do animal
Foto: Vagner Campos / Terra
Hermano Freitas
Natália Pithan

O vira-lata Lobinho, 9 anos, usa uma fralda enquanto espera, na calçada, atendimento no único hospital público para animais do País, localizado no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Seu dono, o vigilante Clodoaldo Gonçalves, 39 anos, tem os braços cruzados enquanto espera, em pé, que seu bicho de estimação seja recebido. Ele afirma ter madrugado para tratar do cão que tem um tumor nos testículos, oculto por curativo colocado após a triagem. A fralda deixa escapar um pouco de sangue. "Tem três dias que ele está assim, e não come desde ontem", diz.

Com poucas ações públicas, saúde animal ainda depende de voluntários

Com pouco menos de dois meses de funcionamento, a demanda por procedimentos médicos em animais cujos donos não têm condições de arcar com as despesas para o tratamento só tem aumentado. Inicialmente a equipe do Hospital Veterinário do Tatuapé contava com 28 funcionários, sendo 16 médicos veterinários. Contudo, para dar conta da forte procura, o hospital está atuando com um quadro de 25 profissionais da saúde animal e mais 25 funcionários de serviços gerais. Ainda assim, a espera média para o atendimento na instituição pode chegar a quatro horas.

No centro cirúrgico do hospital, outro cão de raça não identificada recebe massagem de veterinários após uma parada cardíaca. Não resistiu. A impotência diante de casos em que nada mais é possível fazer pelo bicho emociona. "Tenho 25 anos de formado, marmanjão, corintiano, às vezes saio num cantinho para chorar", desabafa Renato Tartália, 49 anos, médico veterinário e diretor administrativo do hospital.

A prefeitura paulista destina um repasse mensal de R$ 600 mil para a instituição, gerida pela Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais de São Paulo (Anclivepa-SP). De acordo com o autor do projeto, o vereador Roberto Trípoli (PV), como partida, a meta era realizar 100 atendimentos por dia, contando o retorno de pacientes em tratamento. No entanto, a procura pelos serviços cirúrgicos, ortopédicos, dermatológicos e odontológicos foi tão intensa que o vereador já menciona a necessidade de ampliar o atendimento. "Houve um dia em que, às 3h da manhã, já tinha gente na fila aguardando pra pegar a senha. O objetivo era fazer mil atendimentos por mês, mas, do jeito que está, teremos cerca de 3 mil, se continuar assim", explica.

Todos os dias, ao menos 40 novas fichas de atendimento são abertas para pessoas que procuram o hospital comprovando baixa renda, por meio da participação nos programas Bolsa Família e Renda Mínima. Uma assistente social atesta se o proprietário do animal se enquadra no público elegível para o tratamento gratuito. Os casos mais comuns são os atropelamentos: pelo menos cinco por dia.

O desempregado Luiz Carlos Oliveira, 28 anos, leva a gata Molenga há três semanas para receber soro. De acordo com ele, a felina de 15 anos tem insuficiência renal e artrite, entre outras dificuldades decorrentes de sua idade avançada. "Enquanto ela vive, sigo lutando por sua vida, não vou abandoná-la", diz. A faxineira Nair de Jesus Silva, 58 anos, faz carinho na cadela chow-chow Laila enquanto aguarda a remoção de útero do animal. Ambos só têm elogios para o centro de saúde animal.

Já existem projetos para ampliar o espaço destinado à instituição, além da criação de mais centros como esse em outras regiões da cidade. Tartália afirma que a inauguração do hospital, há cerca de 50 dias, foi uma conquista de grupos independentes que tratam dos direitos dos animais. O profissional acredita, ainda, que não há conflito em um atendimento público gratuito para os bichos, pois tratar do animal de estimação é tratar, também, seus donos. "Você percebe que, dando alívio ao sofrimento de um animal, você cura também o dono", finaliza.

Terra