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Referendo
Sexta, 21 de outubro de 2005, 20h16  Atualizada às 20h58
Para armeiros, a ameaça real está no referendo
 
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Eles não vêem ameaça nas armas, mas se sentem ameaçados pelo referendo. Os armeiros, que não só consertam mas também fazem um trabalho artesanal com armas, estão preocupados com o futuro depois da votação deste domingo.

Esses profissionais quase medievais, que encaram seu trabalho como uma arte, temem agora pela extinção de sua categoria. "Os armeiros estão ficando sem trabalho e estão extintos", disse Mario Collado Amador, 53, dono do clube de tiro esportivo Calibre, que fica na Lapa, zona oeste de São Paulo.

Mario lida com armas há 42 anos. Sem influência da família, ele demonstrou fascínio por pistolas e revólveres aos 14 anos. "É como gente que gosta de carro, eu gosto de arma como gosto de jogar tênis. Meu hobby é esse, é minha paixão", acrescentou.

No primeiro casamento, Mario dividiu com a família o trabalho com armas. Ensinou sua ex-mulher a atirar enquanto ainda eram namorados. As duas filhas do casal cresceram em um ambiente diferente ao de outras crianças. "Minhas filhas sofreram preconceito muito sério quando estudavam. Me chamaram na diretoria para explicar por que elas só falavam de armas. Eu falei que minhas filhas eram educadas, que em países civilizados as crianças nas escolas têm aulas de tiro", relembrou.

A história se repetiu no segundo casamento, sua atual mulher também frequenta o clube de tiro e seu filho de 8 anos já aprendeu a atirar. "O que marca as crianças é a curiosidade", disse Mario. Além de seu filho e de sua mulher, cerca de outras 100 pessoas são associadas ao clube. Segundo ele, o número de mulheres inscritas tem aumentado e, para Mario, o principal motivo que as leva a praticar tiro é a segurança.

O clube Calibre não vende mais armas e munições porque prefere evitar "aborrecimentos" com os trâmites necessários para esse tipo de comércio.

Para um armeiro da loja Ao Gaúcho, no centro de São Paulo, que preferiu não ser identificado, a profissão é uma vocação. "Tem que ter dom", disse ele, que traz a herança de armeiro do seu avô e de seu pai, reconhecendo que a profissão está desvalorizada no país. "Não têm condições mais de criar uma família consertando armas. Já tenho outro negócio, mas não quero deixar de ser armeiro."

Declarando o óbvio, adesivos e cartazes da campanha do "não" nas paredes do clube Calibre apontavam a insatisfação de funcionários e associados e também a preocupação com o resultado do referendo.

Os refrigerantes e o cafezinho dividiam espaço no balcão da lanchonete com panfletos que diziam: "Proibir a venda legal de armas não vai desarmar os bandidos."

Os portões do clube, que antes ficavam abertos, agora permanecem fechados. A discrição aumentou, mas quem passa em frente pode notar adesivos nos pára-choques dos carros, no estacionamento, com mensagens contra o desarmamento. "Tirar a arma não é a solução. Quem vai desarmar os bandidos?", questionou Mario.

O atirador esportivo Frederico Rensi Garrido, 54, atira desde os 6 anos por influência do avô. Sua mulher e seu filho de 16 anos também praticam o tiro esportivo. "O problema está na índole, educação e na formação da pessoa. Se proibirem as armas, aí que o comércio ilegal vai aumentar", disse Frederico.

A gerência da loja Ao Gaúcho também manifestou sua oposição à proibição do comércio de armas com mensagens contra o desarmamento nas vitrines.

Nos dois estabelecimentos havia uma faixa da frente parlamentar "Voto Não".
 

Reuters

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