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Valério: "nunca endureci o dedo para ninguém e não vai ser agora"

23 jul 2012
16h40
atualizado às 20h10
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Ney Rubens
Direto de Belo Horizonte

O empresário Marcos Valério, apontado pelo Ministério Público como o operador do suposto esquema do mensalão, caminhava na tarde desta segunda-feira acompanhado de dois homens próximo ao seu escritório, nas ruas do bairro Funcionários, centro-sul de Belo Horizonte, quando foi abordado pelo Terra . Respondendo a uma única pergunta, ele negou que irá delatar alguém a poucos dias de o caso ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal. "Eu sou igual ao Delúbio, nunca endureci o dedo para ninguém e não vai ser agora, às vésperas do julgamento", garantiu Valério, "independente do resultado".

Enquanto seguia para um restaurante, o empresário, que não dá entrevistas à imprensa desde 2005, também se mostrou indignado com uma reportagem da revista Veja que denuncia que ele estaria ameaçando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, a história não passa de uma "ficção científica". "Eu não tenho nenhum confidente em Brasília, principalmente lá, onde não vou há anos. (...) Eu nunca fiz ameaça a ninguém", disse.

A publicação afirma em sua edição desta semana que Valério ameaçou revelar ao Ministério Público detalhes de conversas suas com o então presidente Lula. Segundo a matéria, Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula, admitiu ter participado de reuniões com o empresário, mas diz que isso nada tem a ver com ameaças ou chantagens. Ainda de acordo com a revista, seria a segunda vez que ele ameaça o PT.

Julgamento mais aguardado desde o impeachment do presidente Collor, o caso do mensalão chega à Suprema Corte no dia 2. Ao lado de outros 37 réus, Valério será julgado pelos crimes de corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas. No documento enviado ao STF, a defesa do empresário pede sua absolvição alegando que não há prova que confirme a utilização de recursos públicos no suposto esquema.

O mensalão do PT
Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.

No relatório da denúncia, o ministro Joaquim Barbosa apontou como operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares, e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP, morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.

O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B; Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural Kátia Rabello e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio delator, Roberto Jefferson.

Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes. Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e do irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio Lamas, ambos por falta de provas.

Às vésperas do julgamento do mensalão, Marcos Valério (centro) concedeu entrevista a caminho de um restaurante nos arredores de seu escritório em Belo Horizonte
Às vésperas do julgamento do mensalão, Marcos Valério (centro) concedeu entrevista a caminho de um restaurante nos arredores de seu escritório em Belo Horizonte
Foto: Ney Rubens / Especial para Terra
Terra

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