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Tradução para libras é desafio para intérprete em impeachment

19 ago 2011
12h21
atualizado às 12h43
Rose Mary de Souza
Direto de Campinas

A leitura integral das 1.041 páginas do processo que pede o impeachment do prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira Santos (PDT), o Dr. Hélio, é um desafio não só para oradores, mas para uma pessoa em especial: a tradutora intérprete Natália Romera Estevam, 28 anos. Ela é a responsável por traduzir a linguagem oral para a língua brasileira dos sinais (libras) durante as sessões no Legislativo. Sua imagem aparece no telão dentro do Plenário e é transmitida por um canal de televisão. Desde as 9h da última quinta-feira ela trabalha no processo que pede a cassação de Hélio.

Natália Romera Estevam, 28 anos, é responsável por traduzir a linguagem oral para a linguagem de sinais durante as sessões na Câmara de Campinas
Natália Romera Estevam, 28 anos, é responsável por traduzir a linguagem oral para a linguagem de sinais durante as sessões na Câmara de Campinas
Foto: Rose Mary de Souza / Especial para Terra

No transcorrer da sessão especial, Natália se viu obrigada a reduzir as horas de trabalho. No Plenário, a leitura do processo é revezada entre os vereadores. "Tem tradução para tudo", diz ela, explicando que 80% do trabalho é o contexto do que é dito pelo orador. Ela tem 13 anos de experiência na linguagem de libras e desde março deste ano atua na Câmara Municipal de Campinas. Em geral, as sessões têm duração de duas a três horas.

Ela fica em uma sala pequena, com parede de fundo azul, cercada de holofotes. Na sua frente, há um aparelho de televisão mostrando o que falam os oradores, e uma câmera filmadora, que sobrepõe a sua imagem à tela do que será sintonizado pelo telespectador. "Às vezes, há uma sincronia entre a fala do vereador e a tradução, e a frase termina junto", afirma. Natália explica que há situações em que é preciso encarnar o personagem, ou seja, exige dela uma certa interpretação corporal, como um deboche. Em casos de palavras pouco recomendáveis, a intérprete costuma "falar" em sinais que "ele está dizendo um palavrão".

Vereadores dormem na Câmara
Os vereadores de Campinas passaram a noite da última quinta-feira e a madrugada de hoje no prédio da Câmara Municipal e alguns até dormiram em seus gabinetes para acompanhar a leitura do relatório que pede o impeachment de Hélio de Oliveira Santos. Ao levar os trabalhos para a madrugada sem interrupção, os vereadores pretendem adiantar a votação do pedido de cassação. A leitura integral das 1.041 páginas do processo começou às 9h de ontem.

A Comissão Processante (CP) avalia se o prefeito tem ou não responsabilidade administrativa nas irregularidades apontadas pelo Ministério Público (MP). As investigações do órgão apontaram para supostas fraudes em licitações envolvendo a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. de Campinas (Sanasa). A CP deve arquivar ou colocar em votação a cassação do mandato do prefeito.

Todo o relatório contém 1.649 folhas, mas houve um consenso entre as partes de suprimir a leitura das 608 páginas referente às cópias de depoimentos, escutas telefônicas e pedido de prisão preventiva feito pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP. Como a sessão especial não requer quórum, os vereadores ficaram à vontade para deixar a Casa. De acordo com a assessoria da Câmara, os parlamentares não terão direito ao recebimento de aumento em seus salários pelas horas extras.

Um grupo de estudantes montou barracas e dormiu em uma praça ao lado da Câmara. Eles penduraram cartazes e faixas com a frase "Fora Hélio". O suposto esquema denunciado em 20 de maio resultou no pedido de prisão preventiva decretada pela Justiça de agentes públicos, secretários, empresários, o vice-prefeito e a primeira-dama com a Sanasa. A primeira-dama de Campinas, Rosely Nassin Jorge Santos, é citada em investigações do MP como chefe do esquema de corrupção e tráfico de influência. Ela é é acusada de facilitar acordos para empresas terceirizadas que prestam serviços para a Sanasa.

Sessão termina à noite
A previsão mais otimista para o fim da leitura do relatório é que isto ocorra no final da tarde desta sexta-feira. Os 33 vereadores terão 15 minutos para fazerem suas considerações e depois o prefeito Hélio de Oliveira Santos poderá falar em sua defesa por duas horas. A seguir, os vereadores vão votar pelo sim ou não do impeachment.

Fonte: Especial para Terra
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