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Tetraplégica, deputada convive com 'gafes' dos colegas na Câmara

26 fev 2011
12h08
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Claudia Andrade
Direto de Brasília

Um acidente de carro aos 26 anos tirou os movimentos de Mara Gabrilli do pescoço para baixo. Após se recuperar da capotagem, fundou um instituto, envolveu-se com as causas das pessoas deficientes e passou a ouvir tantas demandas que, influenciada pela mãe, Claudia, acabou entrando na política. Foi vereadora, primeira titular da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo e, com mais de 160 mil votos, elegeu-se deputada federal pelo PSDB paulista.

Aos 43 anos, a deputada agora passa a conviver com um novo grupo de colegas parlamentares, em Brasília, e depara-se com manifestações de curiosidade, interesse e também com algumas "gafes". Um dos casos aconteceu com um parlamentar que tentou cumprimentar a deputada tetraplégica com um aperto de mãos. "Ele ficou tão nervoso, não sabia se me cumprimentava ou se chorava, foi pego totalmente de surpresa", diverte-se.

No geral, a parlamentar tem percebido o respeito dos colegas. "Quando eu quero me enfiar no meio deles nas discussões, eles abrem espaço. Alguns ficam mais constrangidos, mas muitas vezes (a situação) serve para abrir o assunto".

Ela garante que as limitações não serão problema para o dia a dia na Câmara Federal. "Rola uma simpatia pelo tema. Vejo que eles têm desconhecimento, mas têm interesse em querer saber mais. Preconceito, são 513 deputados e tenho certeza que isso deve gravitar na cabeça de muitos, mas não tenho a mínima curiosidade em saber. Nas discussões, vão ver que não existe diferença".

Voto pelo movimento da cabeça
Nas votações, Mara Gabrilli usa um sistema de computador que permite reconhecer o voto pelo movimento da cabeça e leitura da face. O acesso à tribuna do plenário, utilizada para discursos, ganhou um elevador. "Para mim seria inconcebível fazer um discurso em defesa da acessibilidade no chão", ressalta a deputada, que levou a Brasília um arquiteto que já havia feito intervenções em obras de Oscar Niemeyer para ajudar na reforma. "Alguns eram contra por ser um prédio tombado".

Podendo agora discursar na tribuna, Mara e outros dois parlamentares cadeirantes da atual legislatura, Rosinha da Adefal (PTdoB-AL) e Walter Tosta (PMN-MG), ainda estão impedidos de chegar à mesa diretora, que fica três degraus acima do púlpito. A limitação deve acabar com obras previstas para serem feitas durante o recesso do mês de julho, segundo a deputada tucana. Os plenários das comissões e alguns banheiros já foram adaptados para receber cadeirantes.

Diversidade na equipe
Em São Paulo, onde está montando um escritório político, a deputada Gabrilli trabalha quase exclusivamente com pessoas com algum tipo de deficiência. O time tem outras duas cadeirantes: uma paraplégica e uma com paralisia cerebral, um deficiente visual, um auditivo e uma pessoa com Síndrome de Down

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Em Brasília, a equipe ainda não conta com pessoas com deficiência. Na capital federal, a parlamentar diz que sua rotina tem se limitado ao trabalho na Câmara e ao hotel em que se hospeda e que ainda não identificou grandes problemas de acessibilidade na cidade.

As dificuldades têm sido identificadas nos agora frequentes voos entre a capital paulista e a capital federal. Mesmo com o aviso prévio sobre sua mobilidade reduzida, a deputada reclama que nem sempre os equipamentos necessários para acesso às aeronaves estão disponíveis. "Há uma norma da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre isso que tem que ser cumprida. Vou usar todas essas minhas experiências para melhorar as condições para a pessoa com deficiência".

A chegada da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP) exigiu adaptações no plenário da Câmara
A chegada da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP) exigiu adaptações no plenário da Câmara
Foto: Divulgação

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Fonte: Terra
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