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SP: faixas com ofensas e micaretaço marcam ato anti-Dilma

Evento que reuniu 210 mil pessoas em São Paulo, segundo o Datafolha, e 1 milhão, de acordo com a PM, teve também cartazes com ofensas a Dilma e a Lula, além de pedidos de impeachment e de intervenção militar

15 mar 2015
19h36
atualizado às 20h01
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Uma mistura de segundo turno das eleições presidenciais com micareta de carnaval e final de Copa do Mundo – mas não com a seleção do 7 a 1 para a Alemanha, claro – deu o tom, neste domingo, à manifestação ocorrida na Avenida Paulista, principal cartão postal da cidade de São Paulo, contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e o governo da presidente Dilma Rousseff. Segundo estimativas da Polícia Militar paulista, cerca de 1 milhão de pessoas participaram do ato; já o instituto Datafolha, em pesquisa encomendada pelo jornal Folha de S.Paulo, deu 210 mil como número de participantes.

<p>Xingamentos deram o tom a vários cartazes em SP</p>
Xingamentos deram o tom a vários cartazes em SP
Foto: Janaina Garcia / Terra

O protesto foi basicamente convocado e organizado nas últimas semanas pelas redes sociais. Ao menos cinco grupos se fizeram de porta-voz dos manifestantes, com carros de som, vuvuzelas, cornetas e bandeiras que pediam desde o impeachment de Dilma à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) José Antônio Dias Tóffoli. Entre os presentes, crianças e animais de estimação também engrossaram o ato.

A maioria dos participantes vestia roupas verdes, amarelas e azuis. Muitos optaram por usar camisas da Seleção Brasileira, desde modelos mais recentes até os “retrô”. Enquanto gritavam coros como “Fora Dilma”, “Fora PT” e “Lula, cachaceiro, roubou o meu dinheiro”, carregavam cartazes com as mais diversas mensagens. “Guerrilheira de mierda” (com fotos da presidente e de Che Guevara), “Petrolão, Brazilian Shame”, “PT is a terrorist group”, “PT vai para Cuba que pariu” e “A culpa não é minha, eu votei no Aécio” foram alguns deles. Parte dos manifestantes partiu para recados mais ofensivos, como “Dilma p***” e “Dilma, eu pago sua passagem para a Indonésia”.

SP: manifestante xinga a presidente em cartaz
SP: manifestante xinga a presidente em cartaz
Foto: Elisa Feres / Terra

Entre um grito e outro, manifestantantes comandados pelo coletivo "Revoltados Online" entoavam o "Rock do Impeachment" próximo ao Masp. Entre um grupo e outro, ambulantes faturavam com a venda livre de espetinhos, hot-dogs, cervejas e refrigerantes.

Pedidos de “intervenção militar constitucional”
Entre os grupos com carros de som, estava o coletivo intitulado “S.O.S. Forças Armadas”, que abraçou a proposta de “intervenção militar constitucional” e rechaçou outros políticos e partidos que, em eventual caso de renúncia ou impeachment da presidente, assumiriam o poder – sobretudo o PMDB.

“Os comunistas merecem um tapa no pé do ouvido dado pelo povo brasileiro. Graças a esses homens das Forças Armadas o Brasil não virou uma Venezuela”, disse um dos porta-vozes dos defensores da intervenção em cima do caminhão de som. Entre o grupo de aproximadamente 300 pessoas que acompanharam atentas, com aplausos e cartazes (em inglês e português), os pronunciamentos, estava a advogada Kátia Alonso, 42 anos, ao lado da filha de 13 anos “estudante de colégio militar”.

<p>Manifestante exibe cartaz contra a presidente Dilma Rousseff, na Avenida Paulista</p>
Manifestante exibe cartaz contra a presidente Dilma Rousseff, na Avenida Paulista
Foto: Elisa Feres / Terra

“O impeachment da Dilma não vai resolver, porque entraria gente do PMDB. A intervenção militar tem respaldo na Constituição; os militares entram, fazem uma faxina, prendem os corruptos, e, em 90 dias, chamam novas eleições diretas. Não se trata de golpe, nem de ditadura”, jurou. Indagada sobre os mortos e desaparecidos do regime militar no Brasil, a advogada rebateu: “Eram todos comunistas. E nossa Constituição prega a democracia – o socialismo é crime”, defendeu.

A estudante Bianca Santos, de 22 anos, defende a intervenção militar porque é "contra o comunismo"
A estudante Bianca Santos, de 22 anos, defende a intervenção militar porque é "contra o comunismo"
Foto: Janaina Garcia / Terra

Com 22 anos e um cartaz em que se dizia “grato (sic) pela revolução redentora de 1964”, a estudante Bianca Santos admitiu que sequer havia nascido para testemunhar o que foi o período militar no Brasil. “Sou contra o comunismo e quero o período militar de volta. O que eu conheço é pelo que eu estudo. Mas não acredito em tudo o que os livros dizem porque eles foram escritos por comunistas”, argumentou. Como saber, então, que o regime que ela diz defender é melhor que o democrático? “O coronel  (Paulo) Telhada (deputado pelo PSDB e ex-chefe da Rota, tropa de elite da PM paulista) está ali para confirmar”, encerrou.

Cachorros de estimação 'participam' de ato
A dona de casa Soraia Brezolin, de 52 anos, acompanhou o ato do vão do Masp ao lado do marido e da cachorrinha de estimação Belinha. O casal, que votou em Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição de 2014, estava vestido de azul e branco. A cadela levava um lenço amarelo em volta do pescoço. Essa foi a primeira manifestação da família.
 
“Estou aqui pelo óbvio. O brasileiro sempre aceitou tudo. Essa corrupção vem de muito tempo, mas agora os políticos estão PhD. O Brasil é um dos países que tem impostos mais caros no mundo e,     por conta da corrupção, não tem retorno. Isso sempre nos foi natural. Mas temos que começar a discutir essas questões”, disse ela, que se colocou a favor do impeachment de Dilma, mas não soube apontar nenhum outro possível nome para assumir a presidência. “Se eu tivesse condição, iria embora logo desse País”.

A educadora física Kátia Mourão, 33 anos, segura o yorkshire Kauai no ato na Paulista: Na semana da eleição descobriram várias coisas e mesmo assim elegeram a Dilma
A educadora física Kátia Mourão, 33 anos, segura o yorkshire Kauai no ato na Paulista: Na semana da eleição descobriram várias coisas e mesmo assim elegeram a Dilma
Foto: Elisa Feres / Terra

Outra que levou seu animal de estimação ao evento foi a educadora física Kátia Mourão, de 33 anos. Ela estava com o yorkshire Kauai, cujo nome foi dado em homenagem a uma ilha do Havaí. De acordo com ela, a crise no País está “terrível”, os preços da gasolina e do álcool estão “muito altos” e a corrupção não para de aumentar.
 
“Na semana da eleição descobriram várias coisas e mesmo assim elegeram a Dilma”, citou, referindo-se a reportagens da revista “Veja”. “É um absurdo”, indignou-se. Com Aécio, seu candidato, “seria diferente”, pois ela desconhece qualquer caso de corrupção em que ele esteja envolvido. 

Além de concordar com o impeachment, o administrador Danilo Sá, de 39 anos, afirmou que defende uma reforma política. “O impeachment é apenas uma das reivindicações. Ele é até pequeno dentro de todo um processo que tem que ser feito. Deve acontecer uma estruturação, uma reforma grande. Mas não a reforma que o povo daquela manifestação paga quer”, declarou, mencionado o ato que, segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), levou cerca de 100 mil pessoas à Paulista em apoio ao governo e à Petrobras, na última sexta. Sá admitiu ter votado em Aécio no pleito passado. “Mas só porque ele representava um antagonismo. Poderia ter votado em qualquer outro que representasse isso: se meu cachorro concorresse, votava nele”, ironizou.

Dispersão começou às 16h10
O ato começou a dispersar por volta das 16h. Às 17h10, grande parte já havia deixado a Paulista, ainda que, mesmo às 18h, os gritos de “Fora Dilma” e o buzinaço persistissem. Pouco antes das 19h, quando representantes do governo federal falavam em Brasília sobre os protestos, moradores das imediações da Paulista e em outros bairros da cidade – como a Mooca, na zona leste –iniciavam uma segunda sessão de panelaço. A primeira havia sido no domingo passado, durante pronunciamento de Dilma, em cadeia nacional, sobre o Dia Internacional da Mulher.

Fonte: Terra
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