atualizado às 21h08

Relator: Cachoeira tinha intenção de se expandir além de GO

 

O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), disse nesta quinta-feira que "ficou claro" o envolvimento da organização criminosa com a administração do Estado de Goiás. Após o depoimento do delegado da Polícia Federal Matheus Mella Rodrigues, responsável pela Operação Vegas, Cunha acrescentou que várias autoridades de outros Estados também foram citadas. Segundo o relator, havia a intenção explícita da organização do contraventor Carlinhos Cachoeira de se expandir para outras unidades da Federação.

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Cunha disse que, além do Distrito Federal, onde há indícios de atuação do esquema, o Estado do Paraná também foi citado, além do Rio de Janeiro. "Nessa fase das investigações, não é possível dizer que há envolvimento direto dos governadores. A CPI deve investigar todas as interações com agentes públicos", ressaltou.

Apesar dos indícios, o delegado da PF respondeu aos parlamentares que não foram encontradas provas ligando diretamente o empresário a Marconi Perillo (PSDB), governador de Goiás, e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal. Somente uma única vez, o governador tucano teria conversado com o empresário por telefone para felicitá-lo pelo aniversário, segundo relatos de parlamentares que ouviram o depoimento, que ocorreu a portas fechadas em respeito ao segredo de Justiça em que tramita o caso.

Perillo, entretanto, seria citado mais de 200 vezes nas conversas telefônicas entre membros do grupo de Cachoeira interceptadas pela PF. Segundo o senador Randolfe Rodrigues (Psol-AP), o delegado disse que, no governo goiano, havia uma grande infiltração do esquema de Cachoeira nos órgãos do sistema de segurança pública. No Distrito Federal, essa infiltração seria mais tímida.

O delegado teria mencionado pelo menos outras 80 autoridades públicas cujos nomes foram citados nas conversas do grupo, mas não há indícios da participação desses indivíduos na organização. O delegado Rodrigues ainda teria dito aos parlamentares que há pelo menos 26 malotes com material de apreensões feitas pela Polícia Federal que ainda não foram analisados.

A proposta de Randolfe de convocar Perillo para prestar esclarecimentos à CPI não é consenso entre os parlamentares que integram a comissão. O deputado Silvio Costa (PTB-PE), por exemplo, disse que não vê motivos para convocar Perillo. "Não há novidades... Não há motivos para convocar o governador por enquanto. Acho que é irresponsabilidade se algum parlamentar disse isso", argumentou, acrescentando que "não tem batom na cueca (de Perillo)".

O delegado teria dito à CPI que a PF mapeou 13 empresas da organização de Cachoeira, algumas delas no exterior. Ele, no entanto, não apresentou informações sobre movimentações financeiras dessas empresas. Na próxima terça-feira, a CPI deve requisitar a quebra dos sigilos bancários, fiscais e telefônicos desses negócios. Os parlamentares também teriam ouvido relatos de que Cachoeira arrecadava cerca de R$ 1 milhão por mês com 30 máquinas caça-níqueis e ficava com pelo menos 30% desse dinheiro.

Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.

Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.

Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir ouros políticos, agentes públicos e empresas.

Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.

Com informações das agências Reuters e Câmara.

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