- Gustavo Gantois
- Direto de Brasília
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, rejeitou o convite para falar na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários. A informação foi confirmada pelo presidente da CPMI, o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), após o encontro nesta quarta-feira.
Ainda de acordo com o senador, Gurgel alegou ter impedimentos técnicos para comparecer e informou que as investigações não estão concluídas. Procurada pelo Terra, a assessoria da PGR informou que o Código de Processo Penal proíbe que juízes ou membros do Ministério Público sejam testemunhas em processos que atuem.
O presidente da CPMI, no entanto, não ficou satisfeito. "Essa decisão não afasta a possibilidade de convocação. Eu expliquei ao procurador que a minha visita foi institucional, mas tem uma solicitação de convocação. A CPI entende que qualquer cidadão tem o dever de depor, como está na Constituição", disse Vital do Rêgo.
O requerimento para convocação de Gurgel deve ser analisado na primeira reunião da comissão, marcada para as 14h30 desta quarta-feira. Há, no total, 167 requerimentos protocolados na secretaria da CPMI. Desse total, 115 são pedidos de convocação de depoentes, dos quais 24 têm Cachoeira como alvo.
Também estão na lista o sócio majoritário da Delta Construções, Fernando Cavendish; além dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).
O PMDB trabalha para evitar uma convocação do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. No fim de semana, o blog do deputado e ex-governador Anthony Garotinho (PR-RJ) divulgou fotos e vídeos nos quais Cabral aparece com Cavendish em festas em Paris.
Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir ouros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.

