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PR: prefeita eleita é suspeita de comprar votos com passagens

23 nov 2012
07h45
atualizado em 26/11/2012 às 18h47
Carlos Ohara
Direto de Campo Mourão

A Justiça Eleitoral de Campo Mourão (a 460 km de Curitiba) está investigando uma denúncia de suposta distribuição de passagens rodoviárias em larga escala com destino à capital paranaense e também no sentido inverso durante o período eleitoral. O objetivo seria beneficiar a candidata eleita e atual vice-prefeita da cidade.

O objetivo, segundo a denúncia apresentada, seria o de beneficiar a candidata eleita e atual vice-prefeita da cidade
O objetivo, segundo a denúncia apresentada, seria o de beneficiar a candidata eleita e atual vice-prefeita da cidade
Foto: Carlos Ohara / Especial para Terra

De acordo com os denunciantes, a suspeita é de que as passagens fariam parte de dois lotes adquiridos pelo município em licitações homologadas em junho deste ano, no valor total de R$ 665 mil, para atendimento de pacientes ou de pessoas carentes nas áreas de Saúde e Assistência Social.

Ao responder questionamentos da Justiça sobre os gastos no setor, a prefeitura informou que no período de julho até final de setembro foram empenhados quase R$ 482 mil para pagamento das passagens licitadas. O número representa, em apenas quatro meses, 72,5% do total da verba estimada para o período de 12 meses. O empenho é realizado com base nas requisições retidas pela empresa após o fornecimento das passagens, de acordo com as explicações contidas no ofício encaminhado à Justiça Eleitoral.

A denúncia foi apresentada pela coligação "Fazer Mais, Fazer Melhor", liderada pelo candidato Tauillo Tezelli (PPS), derrotado nas eleições por diferença de 694 votos, equivalente a 1,38% dos votos válidos do município. Segundo o documento, as passagens foram entregues para familiares de eleitores residentes em Curitiba que deveriam se deslocar ao município com o compromisso de votar na atual vice-prefeita e candidata eleita.

O juiz da 31ª Zona Eleitoral, Edson Jacobucci Rueda Junior, intimou a prefeitura e o Expresso Nordeste, empresa que venceu a licitação, para apresentar explicações sobre a suposta distribuição e os gastos excessivos no período de campanha. Preliminarmente, Rueda Junior não intimou a candidata eleita, entendendo que a medida cautelar tem o objetivo de instrução para outras ações, caso sejam detectadas ilegalidades. "Neste caso, os esclarecimento e defesa, se assim for o caso, serão prestados em outras esferas", decidiu o juiz.

"Só distribuímos santinhos"
A secretária municipal de Saúde, Márcia Tureck, filha do prefeito, disse que todas as passagens fornecidas por sua pasta podem ser identificadas. Márcia afirma que a secretaria que dirige libera mensalmente cerca de 1,1 mil passagens para pacientes da cidade. "São para pessoas que estão em tratamento ou acompanhantes. Com isso, atendemos melhor os usuários que reclamavam do uso da frota municipal", disse ela.

O procurador do município, José Carlos Severino, explicou que há uma demanda reprimida no sistema para deslocamento de pacientes para Curitiba. "Este é o preço que se paga pela ausência de especialidades na cidade", afirmou. Severino disse que a proposta foi aprovada no Conselho Municipal de Saúde e que o contrato é pago com recursos próprios e verbas de repasse do governo federal.

A prefeita eleita disse ter ficado surpresa com a denúncia e negou que houve distribuição de passagens durante sua campanha. "Nós não tivemos condições de dar nada para ninguém. Só distribuímos santinhos. Nossos recursos foram poucos. Eu contava com mais", afirmou. Ela disse ainda que por estar afastada do cargo de vice-prefeita durante a campanha não sabe "se as passagens eram ou não eram da prefeitura. Só sei da minha campanha, que gastou muito pouco", garantiu. A empresa Expresso Nordeste se negou a falar sobre o assunto.

Promessa de votos
Familiares de eleitores residentes em Curitiba que não viajaram para votar em Campo Mourão entregaram 11 passagens recebidas supostamente durante o período eleitoral para o Terra. Duas pessoas disseram que as passagens eram entregues durante o período eleitoral sob a promessa de votos em candidatos da coligação. Elas chegaram a apontar funcionários públicos do município e um candidato a vereador como responsáveis pela distribuição.

"Era só chegar neles e falar que tinha uns parentes na capital e que vinha votar aqui. A entrega era realizada no mesmo momento. Ele só pedia que o voto fosse aos candidatos da candidata e nela. Eles davam a passagem de ida e volta", disse um dos contemplados com as passagens. Um dos denunciantes é comerciante na cidade e o outro funcionário público.

O Terra localizou ainda dois eleitores de Campo Mourão, residentes em Balneário Camboriú (SC), que utilizaram passagens para retornar a Curitiba após a eleição. Os dois embarcaram com as passagens com os números de controle 212774 e 212775. Segundo eles, os bilhetes foram obtidos junto a cabos eleitorais. Os entrevistados não quiseram ter os nomes revelados.

Procurada em sua sede em Campo Mourão, a empresa Expresso Nordeste informou que "nada tem a declarar". A informação foi repassada por uma recepcionista após consultar a diretoria e explicar o assunto da entrevista. No guichê da empresa na rodoviária, um funcionário confirmou que as passagens apresentadas eram adquiridas por requisição da prefeitura. Alertado para o fato que elas poderiam ter sido distribuídas durante a campanha, o agente disse que não havia problema e que as passagens teriam validade pelo período de um ano. "Não tem problema não. Só a única coisa é que não pode ser devolvido dinheiro", disse ele.

Fonte: Especial para Terra
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