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Maia se diz 'estupefato' com Demóstenes e não descarta CPI

3 abr 2012
17h10
atualizado às 19h03
Elaine Lina
Direto de Brasília

O presidente da Câmara Federal, Marco Maia (PT-RS), disse nesta terça-feira que está "estupefato" com as denúncias de tráfico de influência envolvendo o senador Demóstenes Torres (GO) e o contraventor Carlinhos Cachoeira, preso pela Polícia Federal sob acusação de explorar jogos ilegais em Goiás. Maia disse já ter pedido dados ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para decidir a melhor providência a tomar. Ele não descartou a abertura de investigações pelo Conselho de Ética e pela Corregedoria da Câmara nem a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso.

"Não parece razoável que o senador tenha se envolvido da maneira como se envolveu com uma figura carimbada da contravenção", disse Maia
"Não parece razoável que o senador tenha se envolvido da maneira como se envolveu com uma figura carimbada da contravenção", disse Maia
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Demóstenes pediu hoje a desfiliação do seu partido para evitar um processo de expulsão. Se por um lado o desligamento partidário de Demóstenes ofereceu ao DEM a possibilidade de virar uma página da crise, por outro, a batalha em torno das denúncias de crimes e quebras de decoro parlamentar parece apenas ter começado, com a crise instalada desde a divulgação de sociedades entre parlamentares e empresários que burlavam a lei. "O mais difícil Demóstenes já conseguiu fazer, que foi enganar tanta gente por tanto tempo", declarou nesta tarde o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (PT-BA).

"O senador Demóstenes mentiu em Plenário, e isso por si já é quebrar o decoro, já é cassação", disse Pinheiro, acrescentando que o PT vai trabalhar para evitar que a apuração fique restrita ao decoro. Ele ressaltou a importância de a Corregedoria da casa, hoje exercida pelo senador Vital do Rego (PMDB-PR), reunir todo o conteúdo dos processos de investigação para apurar detalhes sobre o caso. "Quem se beneficiava? Quem corrompia e quem era corrompido?", questionou Pinheiro sobre a relação entre Demóstenes e Cachoeira.

"Não parece razoável que o senador tenha se envolvido da maneira como se envolveu com uma figura carimbada da contravenção", disse Maia. O presidente da Câmara se reuniu com deputados do Psol e representantes da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, que pediram à Corregedoria da Câmara que investigue os deputados Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO), que também aparecem em gravações com Cachoeira. O Psol deverá representar contra Sandes Júnior e Leréia no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar.

"Vamos olhar as investigações para termos condições de definir o que será necessário, se uma CPI, Conselho de Ética ou outros", disse Maia, enfatizando que a Corregedoria "pode e deve" ser o primeiro caminho para a Câmara analisar as possíveis irregularidades.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira
Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que pode resultar na expulsão de Demóstenes. Conforme a nota, "houve desvio reiterado do programa partidário, principalmente no que diz respeito à ética".

Com informações da Agência Câmara.

Fonte: Terra
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