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José Dirceu convoca militantes para ato contra julgamento do mensalão

24 nov 2012
08h56
atualizado às 09h40
Renan Truffi
Direto de São Paulo

Condenado a dez anos e dez meses de prisão no Supremo Tribunal Federal (STF) por conta do escândalo do mensalão, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu pediu na noite desta sexta-feira, em plenária do PT na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo, que os militantes façam "um julgamento do julgamento do mensalão" e marquem atos contra a decisão do Supremo por todo o Brasil.

José Dirceu pediu que os militantes façam um 'julgamento do julgamento do mensalão'
José Dirceu pediu que os militantes façam um 'julgamento do julgamento do mensalão'
Foto: Edson Lopes Jr. / Terra

"Nós temos de fazer o julgamento do julgamento agora. Não temos medo da verdade dos autos.(...) Este ato é uma demonstração da nossa força, do que podemos. Temos que reproduzir em todo o Pais. É preciso que não se confunda a nossa tranquilidade, a nossa segurança, a nossa capacidade de resistir e, se for preciso, enfrentar a prisão, com fraqueza", disse para cerca mil pessoas que acompanharam o discurso em um auditório de uma escola no centro da cidade.

Além disso, Dirceu defendeu que o PT invista na regulação da mídia que, segundo ele, ajudou a "impor" o julgamento do mensalão. Antes do fim do discurso, o ex-ministro também atacou o judiciário brasileiro.

"A minha mensagem é a mensagem que precisamos refletir sobre o que aconteceu, fazer uma avaliação e organizar luta e agenda. Tem que começar com uma ação pelo mandato do João Paulo Cunha (deputado federal que também foi condenado no Supremo). Essa agenda tem que colocar o aspecto da regulação da mídia no brasil. Tem que colocar porque é democrático mas também temos que discutir o poder judiciário", argumentou.

Além de José Dirceu, participaram do ato os também condenados José Genoino, ex-presidente do PT, e o próprio João Paulo Cunha, que foi presidente da Câmara dos Deputados. Condenado por lavagem de dinheiro, peculato e corrupção passiva, Cunha é o único dos três que ainda teve o tamanho da pena definida. O deputado falou sobre como foi lidar com a condenação nos últimos meses.

"Já faz mais de dois meses que decretei silêncio obsequioso. Não falei com ninguém e não participei de nada. Esta é minha primeira manifestação pública após a condenação. (..). Vocês não sabem como é dolorido, É de cortar o coração eu ser acusado de corrupto, sabe. Desde pequeno fiz opção de vida que a riqueza e busca da fortuna não moveriam a minha vida", disse.

João Paulo Cunha ainda comparou a "injustiça" de sua condenação com um episódio bíblico que envolve Jesus Cristo. "Muitas injustiças foram cometidas, inclusive, com o próprio Jesus Cristo. A população libertou Barrabas e crucificaram Jesus. Um dia elas (injustiças) serão reparadas. Talvez eu não esteja mais vivo", afirmou.

Genoino também falou sobre como recebeu o fato de ter sido considerado culpado por envolvimento no escândalo. Ele disse que tem "consciência da inocência". "Quero dizer que, é claro, que o coração está, está doido. Agora a cabeça está fria, erguida e tranquila. Tenho consciência da inocência. Quero dizer para vocês aqui que estive muito tranquilo. Eu estou de cabeça erguida. Aprendi a nunca perder a esperança. Às vezes, as noites são escuras, longas e pesadas, mas quem acredita tem paciência de saber enfrentar", completou.

O mensalão do PT
Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.

No relatório da denúncia, a Procuradoria-Geral da República apontou como operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP, morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.

O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio delator, Roberto Jefferson.

Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes. Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e o irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio Lamas, ambos por falta de provas.

A ação penal começou a ser julgada em 2 de agosto de 2012. A primeira decisão tomada pelos ministros foi anular o processo contra o ex-empresário argentino Carlos Alberto Quaglia, acusado de utilizar a corretora Natimar para lavar dinheiro do mensalão. Durante três anos, o Supremo notificou os advogados errados de Quaglia e, por isso, o defensor público que representou o réu pediu a nulidade por cerceamento de defesa. Agora, ele vai responder na Justiça Federal de Santa Catarina, Estado onde mora. Assim, restaram 37 réus no processo.

Fonte: Terra
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